A inteligência artificial (IA) tornou-se um dilema urgente no jornalismo global. Enquanto a tecnologia já integra o cotidiano de muitos, seja na imprensa ou fora dela, a popularização de ferramentas generativas introduz novas e complexas questões. Em 2026, com quase metade dos brasileiros acessando a internet utilizando recursos como ChatGPT e Gemini, o debate sobre o impacto contínuo da IA na forma de fazer jornalismo é mais relevante do que nunca.
No entanto, essa mesma tecnologia que apoia a produção técnica e agiliza processos nas redações, como visto em veículos como Estadão e Folha de S.Paulo com seus comitês de IA, também levanta sérias preocupações. Ferramentas de busca baseadas em IA generativa, como o AI Overviews do Google, já contribuem para uma redução significativa no tráfego direcionado a sites de notícias, impactando diretamente a distribuição e monetização do conteúdo jornalístico.
A inteligência artificial no cotidiano das redações
Apesar de o debate sobre a IA no jornalismo ser frequentemente discutido em um futuro hipotético, a realidade é que ela já está firmemente estabelecida. Veículos de comunicação, como o Estadão e a Folha de S.Paulo, implementaram comitês e códigos de conduta para nortear o uso da inteligência artificial. A transparência sobre essa utilização foi explorada em um artigo da pesquisadora Kalianny Bezerra, doutora em Jornalismo pelo PPGJOR/UFSC e integrante do objETHOS.
É inegável que a tecnologia tem sido uma aliada na produção técnica, encurtando processos, evitando retrabalho e facilitando o refinamento de dados. Muitas redações estabeleceram setores de análise de informações, onde jornalistas programadores desenvolvem recursos específicos para agilizar a apuração de fatos e mapear pautas potenciais.
Desafios na distribuição e monetização de notícias
A democratização do acesso à informação é vital. Contudo, a popularização das ferramentas de busca com IA generativa introduz uma nova camada de complexidade para o jornalismo. Um estudo da empresa Authoritas revelou que o recurso AI Overviews do Google tem gerado uma redução de 20,6% no tráfego direcionado a sites de notícias. Isso ocorre porque um número crescente de pessoas realiza suas pesquisas diretamente por meio dessas ferramentas, que sintetizam informações sem exigir o acesso aos links de origem.
O impacto dessa prática gerou uma mobilização importante. O estudo completo foi submetido ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) pelas organizações Foxglove, Artigo 19 e Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), em conjunto com o Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio. Desde 2019, o Cade conduz um inquérito administrativo que investiga possíveis infrações e abuso de posição dominante por parte do Google nos sistemas de busca online.
Em junho de 2025, o julgamento do caso foi interrompido após um pedido de vista do conselheiro Diogo Thompson, e uma consulta pública para coleta de novas informações foi aberta, encerrando-se em setembro de 2025. Até a publicação original deste artigo no Observatório da Imprensa, não foram identificadas atualizações sobre o andamento do processo no site oficial do Cade. Além de não divulgar os critérios de seleção de dados, o Google também tem capturado informações jornalísticas — incluindo texto, fotografias e vídeos — sem a devida autorização dos autores.
Paralelamente, veículos da imprensa hegemônica, como Estadão, CNN, Fox News e Le Monde, estão firmando acordos com gigantes da tecnologia, como Google e Meta, para fornecer conteúdo para seus assistentes de inteligência artificial. Isso destaca a complexa relação entre as big techs e as empresas de mídia em um cenário de rápida mudança.
A vulnerabilidade do conteúdo jornalístico e o risco da desinformação
A questão não se resume apenas a como a IA altera a distribuição e seleção de respostas aos usuários. Uma pesquisa intitulada “The Protocol Gap”, realizada pelo Journalism Relay Project, Momentum e International Fund for Public Interest Media (IFPIM), utilizando dados do Atlas da Notícia, revelou um dado alarmante: 93% dos sites de notícias no Brasil não protegem seus dados dos mecanismos de busca por IA.
Essa fragilidade não apenas permite que os conteúdos sejam disponibilizados sem retorno financeiro aos autores, mas também contribui para que as ferramentas mimetizem a linguagem e o formato dos textos jornalísticos. Ao permitir que sistemas de inteligência artificial emulem práticas jornalísticas, empresas de tecnologia abrem um vasto espaço para a ampliação da circulação de conteúdos falsos, especialmente em um contexto onde o público tende a consumir informações cada vez mais fragmentadas e superficiais.
Soma-se a isso a presença de vieses nos próprios mecanismos de busca, que podem limitar a pluralidade e a diversidade de perspectivas. É igualmente comum que os resultados apontem informações erradas ou descontextualizadas. Nesse cenário de incertezas, cresce a preocupação de que a desinformação seja potencializada, inclusive com o aval de grandes empresas, conforme destacado por Caroline dos Passos, jornalista, mestranda em Jornalismo pelo PPGJor/UFSC e pesquisadora do objETHOS.
Considerações finais sobre o jornalismo e a inteligência artificial
O impacto das ferramentas de busca por inteligência artificial no jornalismo em 2026 é, sem dúvida, multifacetado. Embora ofereça eficiências operacionais e de produção, a ameaça à sustentabilidade financeira dos veículos de notícias, a captação de conteúdo sem autorização e o risco elevado de proliferação de desinformação são desafios prementes. A necessidade de transparência, proteção de dados e modelos de remuneração justos para o conteúdo jornalístico é mais urgente do que nunca, à medida que a imprensa busca manter sua relevância e confiabilidade em um ecossistema digital em constante evolução.

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