Tag: desinformação

  • Corrida armamentista contra a desinformação: usando IA para detectar IA

    Corrida armamentista contra a desinformação: usando IA para detectar IA

    A nova paisagem informacional: quando o real e o falso se misturam

    A luta contra a desinformação ganhou um novo capítulo com o avanço da inteligência artificial. Ferramentas capazes de criar imagens, vídeos e textos ultrarrealistas tornaram a distinção entre o que é genuíno e o que é fabricado um desafio cada vez maior. Pesquisadores europeus estão respondendo a essa ameaça com uma estratégia inovadora: usar a própria IA para detectar conteúdo falso.

    Recentemente, vídeos alarmantes inundaram as redes sociais, alegando a invasão de mercados de Natal por radicais islâmicos e tumultos em eventos públicos. As imagens, convincentes à primeira vista, eram, na verdade, compilações de manifestações pacíficas ou completamente geradas por inteligência artificial. Essa nova realidade digital exige respostas tecnológicas ágeis.

    AI4Media: a primeira linha de defesa contra a desinformação

    Em 2020, uma iniciativa financiada pela União Europeia reuniu especialistas de universidades, empresas de mídia e companhias de tecnologia. O projeto AI4Media, com duração de quatro anos, tem como objetivo desenvolver ferramentas de IA que auxiliem jornalistas e verificadores de fatos a autenticar conteúdos digitais de maneira rápida e confiável.

    “Há uma necessidade urgente de desenvolver técnicas de IA para o setor de mídia”, afirma Yiannis Kompatsiaris, diretor de pesquisa do Centro de Pesquisa e Tecnologia Hellas (CERTH) e coordenador da iniciativa. A IA democratizou a criação de conteúdos falsos convincentes, permitindo que qualquer pessoa com acesso a ferramentas generativas produza imagens, vozes ou notícias fabricadas que são amplificadas rapidamente pelas redes sociais.

    “Quando uma história falsa é apoiada por imagens realistas, torna-se muito mais fácil de acreditar – e mais tentador de compartilhar, porque o conteúdo gera mais visualizações”, acrescenta Kompatsiaris.

    As ferramentas desenvolvidas pelo AI4Media foram projetadas para se integrar diretamente aos fluxos de trabalho das redações. Organizações como a Deutsche Welle (Alemanha) e a VRT (Bélgica) já testaram essas tecnologias em cenários reais. Akis Papadopoulos, pesquisador do CERTH envolvido no projeto, descreve a tecnologia como uma “primeira linha de defesa”, que não substitui o julgamento humano, mas sinaliza rapidamente conteúdos potencialmente manipulados.

    AI4Trust: mapeando a disseminação da desinformação

    Identificar o conteúdo manipulado é apenas uma parte da batalha. Compreender como a desinformação se espalha – quem a amplifica, como as narrativas evoluem e se as campanhas são coordenadas – é igualmente crucial. O projeto AI4Trust, em paralelo ao AI4Media, foca justamente nessa análise das dinâmicas mais amplas da desinformação online.

    Financiado pela UE, o AI4Trust reúne universidades e organizações de mídia europeias, incluindo Euractiv (Bélgica), Sky Italia, e serviços de checagem como Maldita.es (Espanha), Ellenika Hoaxes (Grécia) e Demagog (Polônia). Enquanto o AI4Media se concentra na detecção de mídias manipuladas, o AI4Trust constrói um sistema híbrido (humano-máquina) para monitorar e analisar a desinformação em escala.

    A plataforma do AI4Trust rastreia múltiplas redes sociais e sites de notícias em tempo quase real. Utilizando algoritmos avançados de IA, o sistema processa conteúdos multilingues e multimodais (texto, áudio e imagens) para filtrar e sinalizar posts com alto risco de serem falsos. Verificadores de fatos profissionais, então, analisam esse material, e suas avaliações alimentam o sistema, aprimorando seu desempenho continuamente.

    “Estamos em um ciclo contínuo de tentar entender e acompanhar a tecnologia mais recente”, diz Riccardo Gallotti, chefe da Unidade de Comportamento Complexo da Fondazione Bruno Kessler (FBK).

    Uma corrida armamentista tecnológica

    Usar IA para detectar IA pode parecer irônico, mas é uma necessidade séria. “É engraçado, mas é como uma corrida armamentista”, comenta Kompatsiaris. A velocidade com que os modelos de IA generativa evoluem é impressionante. Ferramentas como o ChatGPT eram incipientes quando o AI4Media começou, mas desde então a qualidade e o realismo do conteúdo gerado por IA avançaram drasticamente.

    “Entramos em uma nova era onde a aceleração é difícil para a mente humana acompanhar”, observa Papadopoulos. “Para acompanhar a IA, você precisa usar IA.” Os sistemas de detecção precisam se adaptar constantemente à medida que os modelos generativos se tornam mais poderosos. A equipe de pesquisa enfrentou o desafio de atualizar continuamente seus modelos para detectar imagens recém-geradas.

    Além da tecnologia: regulação e conscientização

    A tecnologia sozinha, no entanto, não é suficiente. “Precisamos de ferramentas, mas também precisamos de políticas e regras”, enfatiza Kompatsiaris. A União Europeia está implementando medidas como o Digital Services Act, que exige que grandes plataformas online avaliem e mitiguem riscos sistêmicos, incluindo a desinformação. O Artificial Intelligence Act impõe obrigações de transparência para sistemas de IA generativa, como a rotulagem de conteúdo criado por IA.

    Paralelamente, um código de práticas busca incentivar padrões de divulgação mais claros e marca d’água para conteúdo gerado por IA. A proteção do jornalismo independente também é uma prioridade, com o European Media Freedom Act estabelecendo salvaguardas para garantir que o conteúdo de mídia profissional seja reconhecido e protegido nas plataformas online.

    A conscientização pública permanece vital. “Não há uma solução única”, conclui Kompatsiaris. “Precisamos de uma combinação de ferramentas de IA, transparência, regulação e conscientização se quisermos ser mais eficazes contra a desinformação.” A pesquisa mencionada neste artigo foi financiada pelo Programa Horizonte da UE.

  • Inteligência artificial impõe desafio e necessidade de regulação, diz Barroso

    Inteligência artificial impõe desafio e necessidade de regulação, diz Barroso

    Inteligência artificial impõe desafio e necessidade de regulação, diz Barroso

    O impacto da inteligência artificial (IA) na vida das pessoas e empresas será, segundo Luís Roberto Barroso, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), ainda maior do que todas as grandes invenções da história. Diante desse cenário, o debate sobre como regular essa tecnologia, sem, contudo, inibir a pesquisa e o desenvolvimento, torna-se urgente. A evolução acelerada da IA apresenta um desafio complexo para a criação de regras eficazes.

    Barroso destacou, durante sua participação no South Summit Brazil, que a IA representa a chamada quarta revolução industrial e que seus riscos não são pequenos. A discussão sobre a regulação surge em um momento em que a própria economia digital já demandava atenção, evidenciando a velocidade com que novas tecnologias transformam a sociedade.

    Quatro áreas de impacto direto da IA

    O ex-ministro do STF elencou quatro temas cruciais onde a inteligência artificial terá influência direta e profunda:

    • Mercado de trabalho: A IA pode levar ao desaparecimento de muitas funções, exigindo novas formas de adaptação profissional, como a transformação de motoristas em programadores.
    • Uso bélico: A aplicação da tecnologia para fins militares levanta preocupações significativas.
    • Desinformação e fake news: A IA pode potencializar a massificação de notícias falsas, afetando a esfera pública.
    • Singularidade: Um ponto hipotético futuro em que a IA superaria a inteligência humana, podendo ganhar consciência e agir de forma autônoma.

    Segundo Barroso, a IA está provocando uma mudança estrutural na vida humana, transferindo a capacidade de tomada de decisão para as máquinas. “A questão é que é preciso regular com o trem em movimento”, ressaltou, ilustrando a dificuldade de legislar sobre algo que evolui tão rapidamente.

    Regulação com princípios gerais e cuidado com excessos

    Diante da velocidade de desenvolvimento, Barroso defendeu que a regulação da IA deve se basear em princípios gerais. O objetivo é criar um marco que proteja os valores democráticos e promova a transparência da tecnologia. Ele alertou para o perigo de uma regulação excessiva, que poderia inibir a pesquisa e criar reservas de mercado em favor de atores já estabelecidos.

    “Apesar de todas as modernidades, são os valores tradicionais que movem a humanidade, o bem, a justiça, a busca pela verdade e a dignidade das pessoas.” – Luís Roberto Barroso

    A comparação com a adoção de outras tecnologias, como o telefone fixo, o celular e, mais recentemente, o ChatGPT, que atingiu 100 milhões de usuários em apenas dois meses, evidencia a escala e a rapidez das transformações trazidas pela IA.

    O papel das grandes empresas de tecnologia

    Além da regulação da tecnologia em si, Barroso apontou a necessidade de revisitar as regras que regem as grandes empresas de tecnologia. Ele destacou que muitas dessas companhias atingiram um porte e um valor de mercado comparáveis ao PIB de países inteiros, tornando-se monopólios em áreas essenciais como buscas na internet, redes sociais e marketplaces.

    Esse domínio crescente das empresas sobre o espaço público levanta questões importantes sobre a concorrência e a soberania digital. A concentração de poder dessas plataformas exige uma análise aprofundada e, possivelmente, novas abordagens regulatórias para garantir um ambiente digital mais equilibrado e seguro.

  • Impactos e usos da inteligência artificial na mídia

    Impactos e usos da inteligência artificial na mídia

    A inteligência artificial revoluciona a mídia: desafios e oportunidades

    A inteligência artificial (IA) generativa se consolidou como uma força transformadora no cenário da mídia, levantando preocupações e abrindo novas avenidas para o jornalismo. Em 2026, o uso da IA para busca de informações disparou, saltando de 11% em 2024 para 24% em 2025, segundo o estudo “Generative AI and news report” do Reuters Institute. Essa ascensão reflete uma mudança significativa na forma como o público consome notícias, com 6% dos entrevistados buscando informações diretamente via IA.

    O debate em torno da IA na mídia ganhou destaque no South by Southwest (SXSW) 2026, onde empreendedores e profissionais do setor discutiram suas implicações. Uma conclusão unânime é que, enquanto a internet eliminou os custos de distribuição, a IA agora impacta diretamente os custos de produção de conteúdo noticioso.

    IA: uma aliada, não uma substituta do jornalismo

    Apesar dos receios, o investidor e empreendedor Mark Cuban defende que a IA ainda não representa uma ameaça existencial ao jornalismo tradicional. Ele compara a inteligência da IA a uma criança de dois anos com boa memória, mas sem a capacidade de medir as consequências de suas ações. Segundo Cuban, a IA opera de forma probabilística e estatística, e a ideia de que ela substituirá todos os profissionais em dois anos é infundada.

    Atualmente, a IA ainda apresenta limitações no mercado de notícias, como a alta latência na atualização e a dificuldade em capturar informações em tempo real. “Há sempre novas informações que a plataforma não captou”, observa o empreendedor.

    Para Cuban, a desinformação é o ponto mais crítico da IA na disputa com veículos jornalísticos. Modelos que apresentam informações incorretas minam a confiança do consumidor e a recorrência no uso da tecnologia.

    Ele aponta que a IA se mostra útil em tarefas repetitivas, burocráticas, auxilia em estudos aprofundados e na geração de ideias. “Se está encarregado, é sua responsabilidade nutrir a cultura de experimentação da IA na sua empresa”, aconselha Cuban.

    A supervisão humana como pilar na era da IA

    A supervisão humana emerge como um princípio absoluto no uso da IA em ambientes corporativos, conforme debatido em diversos painéis no SXSW. À medida que a expertise técnica se torna mais acessível, o valor se desloca para o julgamento humano e a capacidade de discernimento.

    Exemplo disso é a iniciativa do The New York Times. Em dezembro de 2023, o jornal contratou Zach Seward para liderar uma área dedicada à estruturação do uso de IA na redação. Composta por oito colaboradores, incluindo engenheiros, designers e jornalistas, a equipe explora a tecnologia em quatro frentes: treinamento e suporte, jornalismo investigativo e pesquisa, otimização do fluxo de produção e desenvolvimento de futuras experiências de consumo de conteúdo.

    Usos práticos da IA na produção de conteúdo no The New York Times

    Zach Seward detalhou sete usos específicos da IA na produção de conteúdo:

    • Busca semântica: Utiliza IA para buscar não apenas palavras, mas conceitos e contextos, compreendendo sinônimos e variações de termos.
    • Mudanças de meio: Converte dados entre formatos distintos, como transformar vídeos em texto, explicar imagens ou usar OCR (Reconhecimento Óptico de Caracteres) para transcrever textos manuscritos.
    • Computer vision: Emprega IA para analisar imagens, como fotos de satélite, identificando elementos específicos como bombas ou quadras esportivas.
    • Gerar mais dados: Cria novos dados úteis a partir de listas desorganizadas ou grandes volumes de conteúdo, como o acompanhamento de podcasts aliados a figuras políticas.
    • Extração e estruturação de dados: Utiliza IA para extrair informações de arquivos históricos, como publicações antigas do jornal, e organizá-las em planilhas e documentos acessíveis.
    • Classificação granular: Classifica grandes volumes de material, como transcrições de áudio, em segmentos para identificar temas específicos.
    • Adicionando expertise: Combina metodologias para auxiliar em projetos de larga escala, como a análise de documentos complexos liberados por órgãos governamentais, permitindo que jornalistas encontrem informações relevantes com mais eficiência.

    Seward enfatiza a importância de questionar as motivações por trás do uso da IA. “Só nos interessa usar IA como uma ferramenta a serviço de uma missão ou objetivo já existente da organização. Internamente, usamos um atalho para isso: ‘comece pelo porquê, não pela IA’”, afirma.

    Ele alerta contra o risco de se tornar um “martelo de IA vendo pregos em todo lugar”. O ideal é focar nos problemas das pessoas e identificar onde a IA pode genuinamente agregar valor. Na maioria das vezes, a IA pode não ser a solução, mas nos casos em que é, a exploração se torna produtiva.

  • Inteligência Artificial: aliada, ferramenta, mas também perigo — tudo ao mesmo tempo

    Inteligência Artificial: aliada, ferramenta, mas também perigo — tudo ao mesmo tempo

    Inteligência Artificial: aliada, ferramenta, mas também perigo — tudo ao mesmo tempo

    A inteligência artificial (IA) deixou de ser um conceito futurista para se tornar uma realidade palpável no cotidiano. De escolas a negócios, essa tecnologia se manifesta de maneiras diversas, apresentando-se tanto como uma aliada poderosa quanto como um potencial perigo. Ferramentas como o ChatGPT já fazem parte do dia a dia, transformando a forma como aprendemos e trabalhamos.

    Essa dualidade da IA é evidente em suas aplicações práticas. Enquanto impulsiona a criatividade e a eficiência, também levanta questões sobre autenticidade e segurança. Compreender esse cenário multifacetado é fundamental para navegar no mundo cada vez mais digital em que vivemos.

    IA como aliada no aprendizado

    Em Anápolis, o professor Clóvis Teodoro, do CEPI Gomes de Souza Ramos, integrou a inteligência artificial e games educativos em suas aulas de Química e Iniciação Científica. A iniciativa buscou aproximar os alunos do conteúdo, percebendo que recursos digitais estimulam mais a curiosidade e melhoram o desempenho. Essa estratégia se alinha à realidade de um país onde a maioria dos jovens acessa a internet diariamente, tornando as aulas mais dinâmicas, interativas e compreensíveis.

    Ferramenta de empreendedorismo

    Em Goiânia, no CEPI Novo Horizonte, a IA transcendeu a sala de aula para se tornar uma ferramenta de empreendedorismo. Através da Eletiva de Empreendedorismo Juvenil, ministrada pela professora Aline Maria, os alunos aprendem a transformar ideias em projetos concretos com o apoio da inteligência artificial. O resultado são estudantes que já iniciaram seus próprios empreendimentos, descobrindo novas possibilidades ao aprenderem a tirar ideias do papel.

    Os riscos e o perigo da desinformação

    Contudo, a inteligência artificial também apresenta riscos significativos que demandam atenção. O fenômeno das deepfakes, vídeos falsos gerados por IA com impressionante precisão, exemplifica essa preocupação. Heinz Felipe, engenheiro de IA, alerta que esses conteúdos podem levar à disseminação de fake news, golpes financeiros e danos à reputação.

    Para se proteger nesse cenário, o especialista recomenda desconfiar de conteúdos sensacionalistas, verificar a fonte antes de compartilhar e utilizar ferramentas de checagem. O senso crítico emerge como o principal antídoto contra a desinformação.

    A inteligência artificial não é vilã nem heroína — é uma ferramenta poderosa que depende do uso que fazemos dela.

    As experiências nas escolas goianas demonstram que a IA está moldando jovens mais criativos, empreendedores e críticos. O SER Goiás na TV continua acompanhando essa evolução, reforçando o compromisso com a educação de qualidade e a aprendizagem inclusiva.

  • Brasil se prepara para sua primeira eleição com IA, mas está pronto?

    Brasil se prepara para sua primeira eleição com IA, mas está pronto?

    Brasil se prepara para sua primeira eleição com IA, mas está pronto?

    O Brasil está prestes a vivenciar um marco em 2026: sua primeira eleição presidencial com a inteligência artificial (IA) desempenhando um papel proeminente. No entanto, a rapidez com que essas tecnologias evoluem levanta sérias dúvidas sobre a capacidade das instituições e da legislação atual em gerenciar os riscos associados, especialmente no que tange à desinformação e manipulação.

    Desde 2018, o país tem visto um aumento na manipulação de informações e campanhas de desinformação em períodos eleitorais. Em resposta, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem emitido resoluções para regular a publicidade online e o uso de tecnologias emergentes. Contudo, a ausência de um marco regulatório permanente para big techs e a rápida evolução da IA, como os modelos de linguagem grandes (LLMs), desafiam a eficácia dessas medidas.

    O avanço da IA e seus desafios eleitorais

    A popularização de ferramentas como o ChatGPT, lançadas em 2022, acelerou a preocupação com o uso de IA na disseminação de desinformação. Em 2024, uma resolução eleitoral brasileira incluiu pela primeira vez políticas relacionadas à IA generativa, exigindo a divulgação explícita de seu uso em anúncios políticos. Apesar disso, a eleição municipal foi marcada por desinformação gerada por LLMs, deepfakes e conteúdo político alterado.

    O cenário tecnológico evoluiu drasticamente nos últimos dois anos. O custo de execução de modelos de IA diminuiu, facilitando o desenvolvimento e a implantação de novas ferramentas. Lançamentos como Sora 2 e Nano Banana, que integram vídeo e imagens, e o avanço de agentes autônomos de IA, como Claude Code e GPT-5 agents, demonstram o ritmo acelerado dessa inovação.

    Brasil: um mercado ávido por tecnologia e seus riscos

    Os brasileiros são conhecidos por serem entusiastas e adotantes precoces de novas tecnologias. O país figura entre os três maiores em uso semanal do ChatGPT, com cerca de 140 milhões de mensagens trocadas diariamente. Essa receptividade, embora promissora para plataformas tecnológicas, também expõe a democracia a riscos, especialmente em períodos eleitorais críticos.

    Pesquisas indicam que chatbots de IA podem influenciar atitudes de eleitores por meio de conversas persuasivas. Além da capacidade de fornecer insights políticos, essas ferramentas apresentam riscos como outputs incorretos, alucinações e a rápida criação de conteúdo enganoso em larga escala e baixo custo.

    Novas regras e lacunas na regulamentação

    Diante da eleição presidencial de 2026, o TSE estabeleceu novas regras que incluem a divulgação obrigatória do uso de IA em publicidade política digital e um período de silêncio para conteúdo gerado por IA sobre candidatos. Há também uma responsabilidade ampliada das plataformas pela remoção de conteúdo não conforme.

    A resolução define “inteligência artificial” como “um sistema computacional desenvolvido com base em lógica, representação de conhecimento ou aprendizado de máquina, obtendo uma arquitetura que possibilite o uso de dados de entrada de máquinas ou humanos para, com graus variados de autonomia, produzir conteúdo sintético, previsões, recomendações ou decisões que atendam a um conjunto de objetivos pré-definidos e sejam capazes de influenciar ambientes virtuais ou reais”.

    No entanto, termos como “IA generativa”, “modelos de linguagem grandes” ou “chatbots” não são explicitamente definidos. A resolução tenta abranger sistemas de IA conversacional e plataformas de IA generativa, proibindo que provedores de serviços classifiquem, recomendem ou priorizem candidatos, expressem preferência eleitoral ou criem conteúdo audiovisual alterado.

    Desafios persistentes e o futuro da governança de IA

    Apesar de o TSE atualizar suas normas a cada dois anos, a janela para a regulamentação da IA é estreita, deixando lacunas críticas. A resolução atual não abrange ameaças de dispositivos vestíveis, como óculos inteligentes, nem o papel de companheiros de IA em conversas privadas. Além disso, não aborda o uso de agentes de IA por atores mal-intencionados ou o papel de “mini-techs” que oferecem serviços de IA com origens difíceis de rastrear.

    A decisão final sobre a resolução recai sobre um pequeno grupo de juízes do Supremo Tribunal Federal, que acumulam responsabilidades eleitorais e de regulação tecnológica. Essa sobreposição de funções e a limitada expertise técnica levantam questões sobre a capacidade do TSE de acompanhar a complexidade da IA.

    O modelo brasileiro de governança tecnológica tende a ser reativo e pontual. Na ausência de um quadro regulatório abrangente, o TSE se tornou o principal órgão regulador de IA no Brasil, mas sua atuação é limitada ao contexto eleitoral, deixando amplas questões de governança sem solução.

    O projeto de lei mais amplo para regulamentação da IA no Brasil (PL 2338/2023) está estagnado na câmara legislativa. Apesar dos apelos por urgência, a pressão da indústria de tecnologia tem dificultado o progresso. Essa falta de legislação nacional tem sobrecarregado o TSE, forçando-o a criar regulamentos complexos em um momento de crescente desenvolvimento e riscos da IA.

  • Inteligência artificial e rotulagem obrigatória: um debate urgente

    Inteligência artificial e rotulagem obrigatória: um debate urgente

    Inteligência artificial e rotulagem obrigatória

    A rápida evolução da inteligência artificial (IA) generativa tem levantado preocupações globais sobre a veracidade do conteúdo que consumimos. A escalada do conflito no Oriente Médio, por exemplo, foi marcada pela disseminação em tempo real de vídeos e imagens, uma parte significativa dos quais, segundo o O Globo [1], era falsa ou manipulada por IA. Esse cenário, que se repetiu em tragédias como as chuvas em Minas Gerais, onde imagens falsas circularam em meio à comoção, evidencia a necessidade urgente de medidas para distinguir o real do artificial.

    O uso de IA para criar narrativas contrafactuais, embora possa ter fins lúdicos, como a famosa imagem do Papa Francisco com um casaco estiloso em 2023 [3], também pode servir a propósitos perigosos. Governos poderiam usá-la para manipular informações sobre guerras, ou indivíduos para espalhar pânico e desinformação. A facilidade de acesso a ferramentas de IA por qualquer usuário de smartphone amplia esse risco, como visto em vídeos de líderes políticos anunciando rendições ou em falsas explosões próximas a edifícios governamentais [4, 5].

    Usos comerciais e o grave risco de manipulação

    No âmbito comercial, a IA tem sido empregada para promover produtos e serviços de forma enganosa. Um exemplo notório foi um vídeo falso do ex-jogador Ronaldo Fenômeno promovendo um jogo de azar, que permaneceu no ar por meses, gerando vendas antes de ser removido pela Meta [6]. O cenário se torna ainda mais alarmante com o surgimento de ferramentas como o Grok, do X (antigo Twitter). Lançado em dezembro de 2024, o Grok, além de suas funcionalidades de resposta, passou a gerar imagens fictícias a partir de pessoas reais. No início de 2026, usuários utilizaram a ferramenta para criar montagens sexualizadas e pornográficas, inclusive envolvendo crianças, levantando sérias questões éticas e legais [7].

    Os dados indicam uma escalada preocupante: pesquisas apontam para um crescimento de 308% em conteúdos falsos criados por IA no Brasil entre 2024 e 2025 [8]. O crescente realismo dessas criações dificulta cada vez mais a distinção entre o que é genuíno e o que é fabricado, tornando imperativa a adoção de medidas de controle.

    Avanços na regulação: Coreia do Sul e China como exemplos

    Diante deste panorama, a regulamentação da IA se torna um tema central. A Coreia do Sul, pioneira na matéria, aprovou em dezembro de 2024 a “Lei Básica sobre IA”, em vigor desde janeiro de 2026. Esta legislação exige que empresas informem os consumidores sobre o uso de IA generativa em seus produtos e serviços, além de identificar claramente conteúdos produzidos por essas tecnologias quando não puderem ser facilmente diferenciados da realidade. A lei sul-coreana prevê multas significativas para os infratores, buscando criar uma “base segura e confiável para apoiar a inovação em IA” [9].

    A China também implementou diretrizes para a rotulagem obrigatória de materiais gerados por IA e recomendações automatizadas [10]. Esses exemplos internacionais demonstram um movimento global em direção à transparência.

    O Brasil e a regulamentação em andamento

    O Brasil ainda não possui uma lei abrangente dedicada à IA, embora o Projeto de Lei nº 2338/2023 esteja em debate no Senado Federal. Contudo, não há um vácuo normativo total. O Código Civil, em seu artigo 20, já permite a proteção da imagem e voz contra exploração ilícita por ferramentas de IA [11]. A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) também coíbe tais práticas.

    Em um contexto eleitoral, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deu um passo importante ao aprovar, em março de 2026, a Resolução 23.755/2026. A nova norma altera a Resolução 23.610/2019 e estabelece regras claras para o uso de IA nas eleições. Entre as proibições, destacam-se a impossibilidade de sistemas de IA indicarem ou sugerirem candidatos e a vedação à circulação de conteúdos gerados artificialmente nas 72 horas anteriores e 24 horas posteriores ao pleito [13].

    O TSE também impõe a rotulagem obrigatória de conteúdo produzido por IA em propaganda eleitoral. A resolução determina que, ao utilizar IA para criar, modificar ou manipular imagens ou sons, o responsável pela propaganda deve informar de maneira explícita, destacada e acessível que o conteúdo foi fabricado ou manipulado e qual tecnologia foi empregada [14]. Essa exigência de rotulagem se estende a chatbots e avatares, com a vedação de simulações de interlocução com candidatos ou pessoas reais. A violação acarreta a remoção imediata do conteúdo ou a indisponibilidade do serviço [15].

    A rotulagem como ferramenta de mitigação de riscos

    A rotulagem obrigatória, nos moldes do que já preconiza o Código de Defesa do Consumidor ao exigir que a publicidade seja facilmente identificável [16], visa mitigar os riscos de práticas danosas sem proibi-las por completo. Ao informar os destinatários sobre a intervenção tecnológica, permite que a avaliação da mensagem seja feita com base no juízo crítico individual, ciente de que há uma manipulação artificial.

    A proliferação descontrolada de conteúdos falsos via IA, exemplificada em eventos internacionais e nacionais, reforça a urgência da rotulagem obrigatória. Em um ano eleitoral sensível para a democracia brasileira, essa medida se configura como um escudo essencial contra a manipulação da sociedade, garantindo que os cidadãos possam tomar decisões informadas, com plena ciência da origem do conteúdo que consomem.

  • O impacto das ferramentas de busca por inteligência artificial no jornalismo

    O impacto das ferramentas de busca por inteligência artificial no jornalismo

    A inteligência artificial (IA) tornou-se um dilema urgente no jornalismo global. Enquanto a tecnologia já integra o cotidiano de muitos, seja na imprensa ou fora dela, a popularização de ferramentas generativas introduz novas e complexas questões. Em 2026, com quase metade dos brasileiros acessando a internet utilizando recursos como ChatGPT e Gemini, o debate sobre o impacto contínuo da IA na forma de fazer jornalismo é mais relevante do que nunca.

    No entanto, essa mesma tecnologia que apoia a produção técnica e agiliza processos nas redações, como visto em veículos como Estadão e Folha de S.Paulo com seus comitês de IA, também levanta sérias preocupações. Ferramentas de busca baseadas em IA generativa, como o AI Overviews do Google, já contribuem para uma redução significativa no tráfego direcionado a sites de notícias, impactando diretamente a distribuição e monetização do conteúdo jornalístico.

    A inteligência artificial no cotidiano das redações

    Apesar de o debate sobre a IA no jornalismo ser frequentemente discutido em um futuro hipotético, a realidade é que ela já está firmemente estabelecida. Veículos de comunicação, como o Estadão e a Folha de S.Paulo, implementaram comitês e códigos de conduta para nortear o uso da inteligência artificial. A transparência sobre essa utilização foi explorada em um artigo da pesquisadora Kalianny Bezerra, doutora em Jornalismo pelo PPGJOR/UFSC e integrante do objETHOS.

    É inegável que a tecnologia tem sido uma aliada na produção técnica, encurtando processos, evitando retrabalho e facilitando o refinamento de dados. Muitas redações estabeleceram setores de análise de informações, onde jornalistas programadores desenvolvem recursos específicos para agilizar a apuração de fatos e mapear pautas potenciais.

    Desafios na distribuição e monetização de notícias

    A democratização do acesso à informação é vital. Contudo, a popularização das ferramentas de busca com IA generativa introduz uma nova camada de complexidade para o jornalismo. Um estudo da empresa Authoritas revelou que o recurso AI Overviews do Google tem gerado uma redução de 20,6% no tráfego direcionado a sites de notícias. Isso ocorre porque um número crescente de pessoas realiza suas pesquisas diretamente por meio dessas ferramentas, que sintetizam informações sem exigir o acesso aos links de origem.

    O impacto dessa prática gerou uma mobilização importante. O estudo completo foi submetido ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) pelas organizações Foxglove, Artigo 19 e Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), em conjunto com o Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio. Desde 2019, o Cade conduz um inquérito administrativo que investiga possíveis infrações e abuso de posição dominante por parte do Google nos sistemas de busca online.

    Em junho de 2025, o julgamento do caso foi interrompido após um pedido de vista do conselheiro Diogo Thompson, e uma consulta pública para coleta de novas informações foi aberta, encerrando-se em setembro de 2025. Até a publicação original deste artigo no Observatório da Imprensa, não foram identificadas atualizações sobre o andamento do processo no site oficial do Cade. Além de não divulgar os critérios de seleção de dados, o Google também tem capturado informações jornalísticas — incluindo texto, fotografias e vídeos — sem a devida autorização dos autores.

    Paralelamente, veículos da imprensa hegemônica, como Estadão, CNN, Fox News e Le Monde, estão firmando acordos com gigantes da tecnologia, como Google e Meta, para fornecer conteúdo para seus assistentes de inteligência artificial. Isso destaca a complexa relação entre as big techs e as empresas de mídia em um cenário de rápida mudança.

    A vulnerabilidade do conteúdo jornalístico e o risco da desinformação

    A questão não se resume apenas a como a IA altera a distribuição e seleção de respostas aos usuários. Uma pesquisa intitulada “The Protocol Gap”, realizada pelo Journalism Relay Project, Momentum e International Fund for Public Interest Media (IFPIM), utilizando dados do Atlas da Notícia, revelou um dado alarmante: 93% dos sites de notícias no Brasil não protegem seus dados dos mecanismos de busca por IA.

    Essa fragilidade não apenas permite que os conteúdos sejam disponibilizados sem retorno financeiro aos autores, mas também contribui para que as ferramentas mimetizem a linguagem e o formato dos textos jornalísticos. Ao permitir que sistemas de inteligência artificial emulem práticas jornalísticas, empresas de tecnologia abrem um vasto espaço para a ampliação da circulação de conteúdos falsos, especialmente em um contexto onde o público tende a consumir informações cada vez mais fragmentadas e superficiais.

    Soma-se a isso a presença de vieses nos próprios mecanismos de busca, que podem limitar a pluralidade e a diversidade de perspectivas. É igualmente comum que os resultados apontem informações erradas ou descontextualizadas. Nesse cenário de incertezas, cresce a preocupação de que a desinformação seja potencializada, inclusive com o aval de grandes empresas, conforme destacado por Caroline dos Passos, jornalista, mestranda em Jornalismo pelo PPGJor/UFSC e pesquisadora do objETHOS.

    Considerações finais sobre o jornalismo e a inteligência artificial

    O impacto das ferramentas de busca por inteligência artificial no jornalismo em 2026 é, sem dúvida, multifacetado. Embora ofereça eficiências operacionais e de produção, a ameaça à sustentabilidade financeira dos veículos de notícias, a captação de conteúdo sem autorização e o risco elevado de proliferação de desinformação são desafios prementes. A necessidade de transparência, proteção de dados e modelos de remuneração justos para o conteúdo jornalístico é mais urgente do que nunca, à medida que a imprensa busca manter sua relevância e confiabilidade em um ecossistema digital em constante evolução.

  • UE registra aumento acentuado em interferência estrangeira impulsionada por IA

    UE registra aumento acentuado em interferência estrangeira impulsionada por IA

    UE registra aumento acentuado em interferência estrangeira impulsionada por IA

    A União Europeia observou um crescimento alarmante em incidentes de interferência estrangeira impulsionados por inteligência artificial (IA) em 2025. Um relatório do Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE), braço diplomático do bloco, apontou que atores mal-intencionados incorporaram totalmente a nova tecnologia em suas operações, levando a uma quase triplicação desses casos.

    O documento identificou 540 episódios de manipulação e interferência informacional (FIMI) no último ano. Desses, 147 envolviam o uso de IA, representando pouco mais de um quarto do total. Este número representa um aumento expressivo de 259% em relação a 2024, quando foram registrados apenas 41 casos semelhantes, demonstrando a rápida adaptação e expansão dessas táticas.

    Quem está por trás das operações?

    A Ucrânia foi o país mais visado, com 112 incidentes. Em seguida, aparecem a França (107), Moldávia (94), Alemanha (71) e os Estados Unidos (51). A Polônia, um membro importante da UE, registrou 17 incidentes, posicionando-se em oitavo lugar.

    Segundo o relatório, 29% dos incidentes documentados foram atribuídos à Rússia, enquanto 6% foram ligados à China. Os restantes 65% permaneceram sem atribuição direta, embora o documento sugira que muitos possam ter utilizado infraestruturas russas ou chinesas.

    A dificuldade na atribuição se deve à natureza enganosa das operações, que frequentemente ocultam seus operadores e financiamento. O relatório enfatiza que a maior parte das infraestruturas de FIMI é oculta ou inautêntica, tornando a exposição das conexões por trás de fontes secretas crucial para mitigar seu impacto.

    O que está sendo disseminado?

    Os temas explorados pelos atores maliciosos variaram desde o apoio à Ucrânia até as relações transatlânticas. Com a aproximação de eleições, o aparato russo de FIMI explorou questões domésticas para aprofundar divisões e polarização existentes.

    Na Alemanha, o foco foi a imigração; na Polônia, o sentimento anti-refugiados. Narrativas que retratavam a Ucrânia como instigadora de ataques na Europa foram amplamente utilizadas durante eventos de notícias de última hora, como a incursão de drones russos e o sabotagem ferroviária na Polônia.

    Tendências futuras e plataformas utilizadas

    As redes sociais e plataformas de mensagens continuam sendo os meios mais eficazes e de menor custo para alcançar grandes audiências globais. Notavelmente, 88% dos incidentes foram concentrados na plataforma X, propriedade do empresário Elon Musk.

    O relatório conclui que as atividades de FIMI russas provavelmente intensificar-se-ão ainda mais em 2026. Regiões de importância estratégica, como o Mar Báltico e o Ártico, devem se tornar alvos crescentes de operações de influência.

  • A inteligência artificial não vai substituir o ser humano, mas pode substituir quem não aprende a usá-la

    A inteligência artificial não vai substituir o ser humano, mas pode substituir quem não aprende a usá-la

    A inteligência artificial não vai substituir o ser humano, mas pode substituir quem não aprende a usá-la

    Em 2026, a inteligência artificial (IA) deixou de ser uma promessa futurista para se tornar uma ferramenta presente na rotina de milhões de pessoas. Textos, imagens, diagnósticos e análises complexas são gerados em segundos por essas tecnologias. A pergunta que paira no ar não é mais “se” a IA se consolidará no mercado, mas sim “como” cada indivíduo se adaptará a essa nova realidade. A verdade é que a IA não eliminará empregos em massa, mas pode, sim, tornar obsoletos aqueles profissionais que se recusarem a aprender e a integrar essas ferramentas em seu trabalho.

    A sofisticação e o acesso em massa às ferramentas de IA são relativamente recentes, mas sua utilização por grandes empresas em áreas como logística, finanças e análise de dados já ocorria há anos. O que mudou drasticamente é a capacidade de produção em escala e a aparência convincente dos conteúdos gerados. Essa democratização da criação, contudo, abre portas para a proliferação de informações imprecisas e falsas, um desafio ainda maior em anos de debates políticos.

    Desinformação e a responsabilidade humana

    O avanço da inteligência artificial, em especial quando combinada com o alcance das redes sociais, intensifica a disseminação de notícias falsas e narrativas distorcidas. Embora a tecnologia não crie a desinformação, ela amplifica sua capacidade de alcance e sofisticação. Um estudo do Massachusetts Institute of Technology (MIT), divulgado pela revista Science, já indicava que informações falsas se espalham mais rapidamente do que as verdadeiras. Com ferramentas de IA cada vez mais capazes de gerar conteúdos indistinguíveis da realidade, o cenário se torna mais complexo.

    O uso da IA não elimina a responsabilidade humana sobre o que se produz, compartilha ou amplifica. Quanto maior for a liberdade de criar e distribuir informação, maior também a responsabilidade individual pelas consequências desse uso.

    Nesse contexto, a responsabilização pela circulação de conteúdos falsos se torna um ponto crucial. À medida que as ferramentas de IA se tornam mais acessíveis, a distinção entre erro, descuido e má-fé pode se tornar tênue. Contudo, o uso da IA não isenta o indivíduo de sua responsabilidade.

    O mercado de trabalho em reconfiguração

    Paralelamente, a IA está redefinindo o mercado de trabalho. Tarefas operacionais e repetitivas tendem a ser executadas com maior rapidez por sistemas automatizados. A substituição de profissões inteiras de um dia para o outro é improvável, mas uma reconfiguração é inevitável. O valor profissional se desloca da mera execução para a interpretação, o julgamento, a criatividade e a capacidade de tomar decisões contextualizadas.

    O Future of Jobs Report, do World Economic Forum, corrobora essa tendência, apontando que a IA e a automação transformarão milhões de postos de trabalho, exigindo novas competências. A ênfase recai na substituição de tarefas, impulsionando a necessidade de adaptação profissional.

    Adaptação profissional: a chave para o futuro

    O verdadeiro impacto da IA não reside na substituição direta de pessoas por máquinas, mas na substituição de profissionais que não se adaptam por aqueles que dominam o uso estratégico dessas ferramentas. A distinção fundamental passa a ser entre humanos que incorporam a tecnologia e aqueles que a ignoram.

    Isso exige uma atualização contínua e, mais importante, o desenvolvimento do senso crítico. Saber usar a inteligência artificial não significa transferir o raciocínio para a máquina. Significa compreender suas limitações, verificar rigorosamente as informações geradas, assumir a responsabilidade pelo conteúdo produzido e manter o discernimento humano em decisões que envolvem ética, contexto e consequências.

    A inteligência artificial expande nossa capacidade de produção, mas não substitui a essência humana de sentir, interpretar nuances, mediar conflitos e tomar decisões baseadas em valores. Essas dimensões permanecem intrinsecamente humanas. Portanto, o debate se resume à disposição de profissionais e cidadãos em aprender, adaptar-se e assumir a responsabilidade pelo uso das ferramentas tecnológicas que já moldam nossa realidade.

  • TSE fecha cerco ao uso de inteligência artificial, mas deixa lacunas em regras para eleições de 2026

    TSE fecha cerco ao uso de inteligência artificial, mas deixa lacunas em regras para eleições de 2026

    O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou novas regras com o objetivo de disciplinar o uso da inteligência artificial (IA) nas eleições de 2026, buscando conter a produção e circulação de conteúdos enganosos. Apesar dos avanços na regulamentação, especialistas apontam que a resolução ainda apresenta lacunas significativas, especialmente quanto à responsabilidade das empresas desenvolvedoras de IA e à fiscalização em ambientes privados de mensagens.

    As novas normas ampliam a exigência de atuação das redes sociais, que precisarão remover conteúdos ilícitos e tentar impedir a republicação de material manipulado por IA, mesmo sem ordem judicial. Contudo, a ausência de punições mais severas e a dificuldade em identificar materiais gerados por IA deixam um cenário de incertezas para a disputa eleitoral.

    Novas regras e desafios da inteligência artificial nas eleições

    As resoluções aprovadas pelo TSE no início de março, relatadas pelo ministro Nunes Marques e validadas por unanimidade, representam um esforço de atualização diante do rápido avanço tecnológico. Para Fernando Neisser, professor de Direito Eleitoral da FGV-SP, as normas refletem essa necessidade, mas não cobrem todos os aspectos:

    “Se o usuário não consegue identificar, se a Justiça Eleitoral não consegue identificar e se a própria Polícia Federal tem dificuldade, como esperar que uma plataforma como o Instagram identifique esse conteúdo? Se não existe esse filtro, como impor esse dever às plataformas? Falta à Justiça Eleitoral olhar com mais responsabilidade para as empresas que produzem os sistemas de inteligência artificial.”

    A regulamentação concentra suas exigências nas plataformas digitais. Elas terão que agir de forma mais proativa, retirando conteúdos ilícitos e evitando a disseminação de material manipulado por IA. No entanto, a falta de regras claras para as empresas que criam os sistemas de IA, que geram esses conteúdos, é apontada como uma falha.

    Lacunas na regulamentação e ambientes privados de mensagens

    Outra área de preocupação é a circulação de conteúdos políticos gerados por IA em aplicativos de mensagens privadas, como WhatsApp e Telegram. A resolução não delimita claramente quando esse material passa a ser considerado propaganda eleitoral.

    Erick Beyruth, advogado eleitoral e pesquisador da PUC-SP, ressalta que a norma pode dar a impressão de que conteúdos compartilhados nesses aplicativos estariam fora do alcance das regras eleitorais. Ele explica:

    “Uma coisa é o grupo da minha família. É evidente que a Justiça Eleitoral não tem nada que interferir ali. Mas a situação muda quando as mensagens circulam em grupos maiores e abertos, que podem reunir centenas de pessoas. Quando esses grupos ganham escala, deixam de funcionar como uma conversa privada e passam a ter impacto público.”

    A resolução, segundo Beyruth, cria a impressão de que esses ambientes também estariam imunes às regras eleitorais, abrindo uma zona cinzenta importante.

    Inversão do ônus da prova e a complexidade da identificação de IA

    Alberto Rollo, advogado especialista em direito eleitoral, destaca um ponto positivo, mas que pode gerar conflitos: a possibilidade de inversão do ônus da prova em ações eleitorais que envolvam conteúdos sintéticos gerados por IA. Na prática, se houver suspeita de manipulação, quem publicou o material poderá ter que provar sua autenticidade.

    Contudo, Rollo aponta desafios na aplicação: identificar com segurança se um conteúdo foi ou não produzido por IA ainda é um processo complexo, mesmo com perícias técnicas. Essa dificuldade, segundo ele, mostra que o cenário ainda é marcado por incertezas.

    “A gente vai ter que esperar esses problemas aparecerem e depois tentar resolver. Acaba sendo um pouco enxugar gelo”, afirma.

    Perspectiva dos marqueteiros e o futuro das campanhas com IA

    Enquanto juristas identificam lacunas, profissionais que atuam diretamente em campanhas eleitorais entendem que o desafio também envolve a forma como a tecnologia será utilizada por candidatos e suas equipes.

    Pedro Simões, marqueteiro que trabalhou em campanhas como a de Tabata Amaral, lembra de episódios de deepfakes usados para atacar candidatas e afirma que a IA já é um instrumento de ataque político. Ele defende que as próprias campanhas precisam adotar cuidados para evitar o uso irregular desses conteúdos.

    A avaliação é compartilhada por Duda Lima, que coordenou campanhas de Jair Bolsonaro e Ricardo Nunes. Para ele, as eleições de 2026 serão marcadas pela inteligência artificial:

    “Será o ano da IA.”

    Ele prevê que a tecnologia será amplamente incorporada às estratégias eleitorais.

    Avanços nas regras, mas punições consideradas brandas

    Apesar das lacunas, as novas resoluções do TSE ampliam responsabilidades de plataformas e candidatos. Entre as novidades, está a proibição de circulação de conteúdos sintéticos novos produzidos ou alterados por IA nos 72 horas antes e 24 horas depois das eleições. As plataformas também são responsabilizadas solidariamente se não removerem materiais irregulares.

    Contudo, as sanções previstas, como multas, são consideradas brandas e com pouco efeito dissuasório diante da velocidade de propagação da desinformação gerada por IA. Alberto Rollo comenta:

    “As multas para a utilização de inteligência artificial também são muito baixas. Não deveria ser assim.”

    O cenário para 2026 aponta para uma eleição onde a inteligência artificial será um fator chave, com o TSE buscando impor limites, mas com desafios significativos na aplicação e fiscalização das regras estabelecidas.