IA Transforma Penas de Galinha em Cashmere Sustentável
Startup Everbloom revoluciona moda com tecnologia que recicla resíduos em fibras de luxo.
O luxo do cashmere, conhecido por sua maciez incomparável e calor, está cada vez mais acessível, mas essa popularidade esconde um dilema ambiental e ético. A produção tradicional de cashmere, que depende da tosa de cabras específicas, enfrenta desafios devido à demanda crescente e à pressão sobre os recursos naturais. Em resposta a essa realidade, a startup **Everbloom** surge com uma solução inovadora: uma **inteligência artificial** capaz de transformar **penas de galinha** e outros resíduos em fibras de alta qualidade, praticamente indistinguíveis do cashmere genuíno.
A Pressão sobre a Produção de Cashmere e a Busca por Alternativas
O cashmere, extraído do subpelo fino de certas raças de cabras, tem uma produção naturalmente limitada. Cada animal, tosado geralmente duas vezes ao ano, gera apenas entre 113 e 170 gramas da fibra anualmente. Essa escassez, diante de um mercado ávido por suéteres e peças de luxo a preços baixos, tem levado a práticas de manejo insustentáveis. Sim Gulati, cofundador e CEO da Everbloom, aponta o problema: “Os produtores de matérias-primas estão realmente sob muita pressão”. Ele alerta que a frequência excessiva de tosas compromete a qualidade da fibra e a saúde dos animais, criando um ciclo prejudicial.
Diante desse cenário, a Everbloom optou por um caminho radicalmente diferente. Em vez de tentar otimizar os métodos tradicionais, a empresa investiu em tecnologia para criar um material totalmente novo a partir de resíduos. Com um investimento de mais de 8 milhões de dólares de fundos como Hoxton Ventures e SOSV, a startup desenvolveu a **Braid.AI**, uma inteligência artificial focada em ciência de materiais.
Braid.AI: A Inteligência Artificial que Cria Fibras de Luxo
A Braid.AI é o coração da operação da Everbloom. Essa IA de ponta é capaz de ajustar uma vasta gama de parâmetros para gerar fibras com características específicas, visando não apenas replicar o cashmere, mas também outros materiais têxteis amplamente utilizados. O processo da Everbloom é versátil e foca na utilização de resíduos provenientes de diversas fontes na cadeia de suprimentos têxtil.
Atualmente, a empresa coleta materiais como restos de cashmere e lã de fazendas e moinhos, além de enchimentos de edredons. O plano futuro é expandir a coleta para incluir **penas de galinha** e outros resíduos da indústria avícola. O elo comum entre esses materiais é a presença de queratina, a proteína fundamental que a tecnologia da Everbloom utiliza em seu processo.
Do Resíduo à Fibra de Luxo: Um Processo Inovador
O método da Everbloom começa com o corte dos resíduos em tamanhos adequados, que são então misturados a compostos proprietários. Essa mistura passa por uma **máquina de extrusão plástica**, onde é moldada ao ser forçada através de uma matriz. Os “pellets” resultantes são encaminhados para máquinas de fiar, equipamentos comuns na produção de fibras de poliéster, que dominam cerca de 80% do mercado têxtil. “É necessário atuar como um substituto direto”, explica Gulati, enfatizando a integração da tecnologia com a infraestrutura existente.
Todas as reações químicas necessárias para a transformação ocorrem dentro dessas máquinas. Com a orientação precisa da IA Braid.AI, a Everbloom consegue ajustar a formulação e os processos para criar fibras que mimetizam a textura e o desempenho de materiais como o poliéster e, notavelmente, o cashmere. A capacidade de replicar a sensação e a funcionalidade de fibras de luxo a partir de materiais descartados representa um avanço significativo para a indústria da moda.
Sustentabilidade e Viabilidade Econômica: O Futuro da Moda
Um dos pilares da Everbloom é a **sustentabilidade**. A empresa garante que todas as fibras produzidas, incluindo o substituto do poliéster, são **biodegradáveis**. “Todos os componentes que utilizamos são biodegradáveis”, afirma Gulati, que também menciona a realização de testes acelerados para comprovar essa característica. Além disso, a utilização de resíduos na produção reduz drasticamente o impacto ambiental associado à extração de matérias-primas virgens.
A visão da Everbloom vai além da simples criação de um material ecológico. O objetivo é tornar a moda sustentável economicamente viável para marcas e consumidores. Gulati expressa sua convicção: “Não acredito em um ‘prêmio sustentável’ — a ideia de que produtos ecológicos devem custar mais. Para que um material seja bem-sucedido, tanto na cadeia de suprimentos quanto para o consumidor, é preciso oferecer benefícios ao produto e vantagens econômicas para todos os envolvidos. Esse é o nosso objetivo.”
A iniciativa da Everbloom demonstra o potencial da **inteligência artificial** em solucionar desafios complexos da indústria moderna, promovendo uma economia circular e oferecendo alternativas de luxo que respeitam o planeta e os seus recursos. A transformação de **penas de galinha em cashmere** é um exemplo notável de como a inovação tecnológica pode redefinir os padrões de produção e consumo na moda.

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