O avanço da IA na saúde mental: uma revolução ou um complemento?
A pergunta que paira no ar é se o ChatGPT, a inteligência artificial que tem revolucionado diversas áreas, um dia poderá substituir os psiquiatras. A resposta mais comum, e que encontra respaldo em opiniões de especialistas, é que não. No entanto, há motivos para se questionar se essa realidade permanecerá inalterada no futuro. O professor de sociologia Joseph E. Davis, em análise publicada na revista especializada Psychiatric Times, explora o potencial e as limitações dos chatbots na área da saúde mental.
O próprio ChatGPT, ao ser questionado por um psiquiatra sobre sua capacidade de substituir um profissional humano, declarou: “Como uma IA, posso ajudar em várias maneiras, mas devo esclarecer que não posso substituir totalmente um psiquiatra humano.” Essa declaração, embora venha de uma máquina, reflete o consenso atual: a IA pode ser uma ferramenta de apoio, mas não um substituto completo.
O crescimento dos chatbots terapêuticos
A ideia de conversar com um programa de computador sobre problemas de saúde mental pode parecer estranha para alguns, mas para muitos já é uma realidade cada vez mais comum. Em 2017, um artigo publicado no JAMA já apontava que milhões de pacientes nos Estados Unidos e em todo o mundo já utilizavam programas de software, como o “Gabby”, para discutir seus desafios de saúde mental.
Desde então, o cenário se expandiu significativamente com o lançamento de diversos chatbots focados em saúde mental, como Woebot, Wysa e Youper. A Wysa, por exemplo, afirma ter realizado “mais de meio bilhão de conversas de chat com IA com mais de cinco milhões de pessoas sobre sua saúde mental em 95 países”. Já o Youper relata ter “apoiado a saúde mental de mais de dois milhões de pessoas”.
Uma pesquisa nacional dos EUA de 2021, encomendada pela Woebot Health, revelou que 22% dos adultos já haviam utilizado um chatbot de saúde mental. Desses, 60% iniciaram o uso durante a pandemia de COVID-19. Surpreendentemente, 44% afirmaram ter utilizado exclusivamente chatbots, sem consultar um profissional de saúde mental, e outros 47% expressaram interesse em usar um chatbot terapêutico se sentissem necessidade de ajuda.
ChatGPT: de assistente geral a potencial terapeuta?
Embora o ChatGPT não tenha sido projetado especificamente como uma ferramenta de saúde mental, usuários têm encontrado maneiras de adaptá-lo para essa função. Em plataformas como o Reddit, é possível encontrar guias que ensinam como “treinar” o chatbot para atuar como terapeuta, instruindo-o a assumir um papel específico, como o de uma “Dra. Tessa, uma terapeuta compassiva e amigável”, com o objetivo de demonstrar interesse genuíno e fazer perguntas que estimulem a autorreflexão.
Essa adaptação levanta questões sobre o que exatamente uma IA pode e não pode oferecer no cuidado em saúde mental. Discussões na mídia e na academia apontam que os chatbots podem ser úteis em tarefas administrativas, como coleta de dados, fornecimento de informações sobre transtornos e terapias, aplicação de questionários de triagem, monitoramento de adesão ao tratamento e análise de padrões em sintomas e eficácia terapêutica. Esses são aspectos que possuem estrutura e regularidades passíveis de identificação e previsão, o que chamamos de “elemento máquina”.
O insubstituível “elemento humano”
O que o ChatGPT e outros chatbots ainda não conseguem replicar, e que é crucial na psiquiatria, é o “elemento humano” do cuidado. A empatia genuína, a compreensão sutil da experiência do paciente, o contexto social e a complexidade emocional são aspectos intrinsecamente humanos que a IA, em seu estado atual, não pode oferecer.
Essa distinção traz um certo alívio para muitos profissionais da área, que temiam a substituição de seus empregos. No entanto, a comparação com o surgimento de medicamentos psiquiátricos nas décadas de 1950 e 1960 é pertinente. Na época, medicamentos como Ritalina e Thorazine foram promovidos não como substitutos da psicanálise e psicoterapia, mas como um complemento que aumentaria a eficiência do cuidado e facilitaria a comunicação.
O que se seguiu foi uma mudança significativa na prática psiquiátrica. A terapia verbal diminuiu, as consultas foram encurtadas e o tratamento passou a ser majoritariamente focado na prescrição de medicamentos. Dois psiquiatras, em um artigo no New England Journal of Medicine, observaram que “Amálgamas de sintomas no estilo de listas de verificação tomaram o lugar do diagnóstico reflexivo, e o ‘gerenciamento de medicação’ de tentativa e erro assumiu a prática em grau alarmante… o campo parece ter abandonado em grande parte suas bases sociais, interpessoais e psicodinâmicas, com pouco a mostrar por esses sacrifícios.”
O futuro da psiquiatria: máquina ou humano?
Considerando as pressões institucionais como custo, a necessidade de alta produtividade e o interesse corporativo em “uma formulação de doença mental e seu tratamento falsamente simplificada e determinista”, a prioridade do elemento humano na psiquiatria torna-se ainda mais duvidosa. Há o risco de que os próprios psiquiatras se tornem complementos, não por oferecerem um cuidado relacional superior, mas por se adaptarem a um modelo mais “maquinal”.
A ideia de interagir com uma IA que reconhece não ter sentimentos, mas que “fará o seu melhor, treinado na internet, para “imitar empatia e compaixão””, soa artificial. É um artifício do início ao fim. A razão pela qual os psiquiatras podem ser deslocados não é a capacidade da IA de oferecer um cuidado genuinamente relacional, mas sim porque grande parte do que é distintamente humano em sua prática já foi marginalizado.
Se os psiquiatras passarem a competir com máquinas em tarefas de máquina, eles estarão servindo às máquinas, e não o contrário. Talvez, paradoxalmente, os chatbots sirvam como um alerta. Através de sua artificialidade e superficialidade, eles podem nos lembrar do que é verdadeiramente o cuidado humano e qual deve ser sempre o objetivo da psiquiatria: oferecer um suporte genuíno e empático, focado na complexidade e singularidade de cada indivíduo.

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