A inteligência artificial (IA) está em uma corrida global de desenvolvimento, mas a cientista e investidora Rana el Kaliouby levanta uma questão fundamental: qual será o papel dos humanos nesse avanço? Em sua participação no SXSW 2026, em Austin, Kaliouby defendeu que o desenvolvimento da IA deve priorizar a manutenção das pessoas no centro da tecnologia. A visão é clara: a inteligência artificial deve ser uma ferramenta para ampliar as capacidades humanas, e não para substituí-las.
Durante sua palestra, Kaliouby ressaltou que, em vez de eliminar empregos ou restringir a criatividade, a IA deveria potencializar as habilidades existentes. Essa perspectiva é fruto de sua carreira focada em entender como máquinas podem interpretar emoções humanas através de sinais não verbais. Atualmente como investidora na Blue Tulip Ventures, ela observa um descompasso na indústria: há um grande investimento na capacidade cognitiva das máquinas, mas os aspectos sociais e emocionais da inteligência ainda são negligenciados.
IA precisa de inteligência emocional e social
Segundo Rana el Kaliouby, para que a IA atinja um nível de inteligência geral verdadeiramente avançado, é crucial que as máquinas desenvolvam inteligência emocional e social. Ela apontou que a maioria dos modelos de IA foca na interpretação de linguagem e dados estruturados, ou seja, o que é dito explicitamente. No entanto, a comunicação humana é predominantemente não verbal.
“Apenas 7% da comunicação está nas palavras que usamos. Cerca de 93% é não verbal, como expressões faciais, gestos, linguagem corporal”, explicou. Essa dimensão, que é vital para a interação humana natural, ainda é subdesenvolvida nos sistemas de IA. O resultado são máquinas altamente funcionais, mas que frequentemente falham em interagir de maneira fluida e empática com pessoas.
“As empresas estão obcecadas com a funcionalidade. Mas quase não pensam em como essas tecnologias vão interagir com humanos no mundo real. Eu não gostaria de ter muitos desses robôs na minha casa.”
Trajetória e a busca por conexão humana
A defesa de uma IA mais centrada no ser humano reflete a própria trajetória de Kaliouby. Nascida no Egito, ela cresceu em um ambiente onde tecnologia e vida cotidiana se entrelaçavam. Sua família, com um pai professor de programação e uma mãe pioneira na programação no Oriente Médio, moldou sua visão.
Desde cedo, a pergunta que guiava seu trabalho era: “como podemos construir tecnologias que aproximam as pessoas, em vez de isolá-las?”. Essa questão se manifesta até mesmo em sua casa, onde seus dois filhos representam diferentes facetas da relação com a tecnologia.
Enquanto um filho, aos 17 anos, explora intensamente novas ferramentas de IA, utilizando-as, por exemplo, para traduzir diários manuscritos de trabalhadores egípcios do início do século XX, a filha, recém-formada em antropologia alimentar, criou um espaço cultural focado em encontros presenciais e debates. “Na nossa mesa de jantar, você vê os dois lados da sociedade atual”, comentou Kaliouby. “Precisamos abraçar a IA. Mas também precisamos proteger nossas conexões humanas”, concluiu, destacando que a colaboração, tanto com outras pessoas quanto com máquinas, será uma habilidade essencial no futuro.
Investimentos e o futuro da IA
Na Blue Tulip Ventures, Rana el Kaliouby direciona investimentos para startups de IA em três áreas principais:
- Saúde e longevidade, com foco em diagnósticos e tratamentos aprimorados por sensores e dados.
- Futuro do trabalho, englobando automação e sistemas de agentes inteligentes para empresas.
- Sustentabilidade, com aplicações em clima, energia e sistemas alimentares.
Kaliouby também destaca a importância dos dados exclusivos como diferencial competitivo na economia da IA. Contudo, ela alerta para um risco social significativo: a homogeneidade no setor de startups e investimentos em IA, majoritariamente dominado por homens. Essa falta de diversidade pode aprofundar desigualdades existentes.
“Se mulheres ficarem de fora da criação dessas empresas e do financiamento dessas startups, vamos ampliar ainda mais a disparidade. Precisamos humanizar a tecnologia antes que ela nos desumanize”, enfatizou Rana el Kaliouby, reforçando a necessidade de incluir mais vozes na construção do futuro da inteligência artificial.

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