Tag: Brasil

  • 9 em cada 10 brasileiros já usaram IA sem saber; e isso pode te incluir

    9 em cada 10 brasileiros já usaram IA sem saber; e isso pode te incluir

    A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser um conceito futurista para se tornar uma presença cotidiana na vida dos brasileiros. Uma pesquisa recente do Instituto Locomotiva, em parceria com a OpenAI, revela que 98% dos internautas conhecem alguma ferramenta de IA e, mais surpreendente ainda, 87% afirmam já ter utilizado algum aplicativo ou serviço com essa tecnologia, muitas vezes sem ter consciência disso.

    Esse dado explica por que grande parte da população, cerca de 89%, acredita que a presença da IA só tende a crescer, mas já convive com ela em atividades que vão desde buscas na internet e recomendações de conteúdo até o atendimento automatizado e ferramentas de estudo. A pesquisa reforça que a IA não é mais algo pontual, mas sim parte integrante da rotina digital de aproximadamente 78% dos brasileiros.

    A IA no cotidiano brasileiro

    A integração da IA no dia a dia se manifesta de diversas formas. Ferramentas de busca utilizam algoritmos inteligentes para apresentar os resultados mais relevantes, plataformas de streaming sugerem filmes e séries com base em seu histórico de visualização, e assistentes virtuais respondem a comandos de voz. Essas aplicações, que já fazem parte da vida de milhões, são exemplos claros de como a IA opera silenciosamente.

    O levantamento aponta que a maioria dos entrevistados, 78%, já considera a IA parte da vida da maioria da população. Essa percepção se alinha com a observação de que o uso da tecnologia se tornou menos esporádico e mais incorporado à rotina digital dos brasileiros.

    Expectativas e oportunidades com a IA

    A percepção do avanço da IA vem acompanhada de otimismo. Conforme a pesquisa, 84% dos brasileiros acreditam que a tecnologia pode trazer benefícios para tarefas do dia a dia. No ambiente profissional, o impacto é visto com ainda mais clareza: 80% dos entrevistados avaliam que aprender a usar ferramentas de IA pode ampliar oportunidades de trabalho.

    Esse interesse crescente se reflete no desejo de aprendizado, com 82% dos brasileiros querendo se aprofundar no tema. É notável que esse movimento abrange diferentes perfis, incluindo pessoas com ensino fundamental, onde 78% demonstram vontade de aprender. Contudo, 61% sentem que ainda faltam cursos, ferramentas e informações para um acesso mais amplo ao conhecimento, percentual que sobe para 64% entre pessoas com mais de 50 anos.

    Regulamentação e uso no setor público

    Com a expansão do uso da IA, cresce também a discussão sobre sua regulamentação. A maioria dos brasileiros (82%) defende a criação de leis específicas para a tecnologia no país, e 76% acreditam que a população deve participar ativamente dessa construção. A preocupação com clareza e simplicidade nas regras é alta, com 86% exigindo que as normas sejam fáceis de entender, enquanto 68% temem que excessos regulatórios prejudiquem cidadãos e empresas.

    O setor público também se beneficia da IA, com 75% dos entrevistados considerando seu uso seguro nesse contexto. Os ganhos práticos incluem a criação de políticas públicas mais precisas (74%), a antecipação de problemas e ações preventivas (78%), e a melhoria no planejamento e tomada de decisões (75%). A tecnologia também é vista como ferramenta para reduzir desigualdades, ampliando acesso à informação e educação, e para a economia de recursos, com 78% afirmando que a IA pode reduzir desperdícios.

    O futuro da IA no Brasil

    Há uma visão estratégica sobre o futuro da IA no Brasil, com 81% dos brasileiros acreditando que o país precisa investir na área para acompanhar o cenário internacional. O levantamento, conduzido pelo Instituto Locomotiva em parceria com a OpenAI, confirma que, mesmo sem perceber, a maioria dos brasileiros já interage com sistemas baseados em IA, e a tendência é que essa presença se torne ainda mais comum nos próximos anos.

  • Summit Brazil-China: Saúde e inteligência artificial impulsionam integração tecnológica

    Summit Brazil-China: Saúde e inteligência artificial impulsionam integração tecnológica

    Summit Brazil-China: Saúde e inteligência artificial oferecem oportunidades concretas para integração tecnológica

    O painel “Forjando o Futuro: Saúde, IA e Setores Emergentes na Colaboração Brasil-China”, realizado durante o Summit Valor Econômico Brazil-China 2026 em Xangai, destacou o imenso potencial para a cooperação tecnológica entre Brasil e China. Autoridades, diplomatas e executivos apresentaram caminhos concretos para a integração em áreas cruciais como saúde e inteligência artificial (IA), sinalizando um futuro promissor para o desenvolvimento conjunto.

    A discussão, ocorrida nesta quarta-feira (25), girou em torno de como as sinergias entre as duas nações podem ser aproveitadas para impulsionar a inovação e criar novas cadeias de valor globais. O evento ressaltou a importância estratégica dessas áreas para o avanço econômico e social de ambos os países.

    Ecossistemas de inovação e agilidade regulatória

    A cidade chinesa de Hangzhou foi apresentada como um modelo de ecossistema de inovação bem-sucedido. Chen Weijing, vice-diretora da Agência Municipal de Comércio local, descreveu o modelo como uma “floresta”, onde a interação contínua entre empresas e governo é fundamental. “Estabelecemos plataformas para corredores de inovação, laboratórios e grandes projetos, incluindo universidades, e aplicamos isso por meio de regulamentos voltados a novos setores”, explicou.

    A agilidade regulatória é um dos pilares desse sucesso. Chen Weijing destacou que, em Hangzhou, uma empresa pode ser aberta em apenas 25 minutos, um fator que tem impulsionado o crescimento de companhias locais. Zhou Yong, diretor de marketing da StarSpecies Robotics, exemplificou esse cenário, afirmando que sua empresa nasceu e prosperou nesse ambiente de apoio institucional. Hui Jingbo, diretor de marketing da Zhizhen Technology, ressaltou como a infraestrutura local foi essencial para o desenvolvimento de modelos de linguagem para a saúde. “O LLM [modelo de linguagem de grande escala] precisa sair do servidor e ir para a prática. Em menos de um ano, conseguimos nos integrar a uma rede internacional de hospitais”, disse, evidenciando ganhos em eficiência e redução de custos.

    Oportunidades para o Brasil na era da IA

    Do lado brasileiro, a experiência chinesa abre caminhos para a exploração de novas oportunidades. Felipe Daud, diretor de relações institucionais do Alibaba para América Latina, defendeu a criação de condições favoráveis para atrair data centers ao Brasil. “O Brasil tem energia limpa, fundamental para a inteligência artificial. Há urgência em não perder essa janela de oportunidades”, alertou, enfatizando a necessidade de regras equilibradas e um sistema tributário simplificado para investidores estrangeiros.

    Igor Marchesini Ferreira, assessor especial do Ministério da Fazenda, reforçou o potencial brasileiro como um “fábrica verde de tokens” de IA. Segundo ele, a combinação de energia renovável e integração internacional posiciona o país de forma estratégica. Ferreira estima que, se metade dos projetos de data centers se concretizar, o Brasil poderá adicionar até US$ 150 bilhões por ano em exportação de inteligência, um impacto comparável ao boom das commodities do início dos anos 2000.

    Saúde: um campo fértil para parcerias

    A cooperação em saúde entre Brasil e China também foi um ponto central do debate. Leticia Frazão Leme, ministra conselheira na Embaixada do Brasil em Pequim, compartilhou a estratégia brasileira de fortalecer seu complexo produtivo para reduzir custos do Sistema Único de Saúde (SUS) e diminuir a dependência de mercados do Norte global. “Na China, vemos um boom de inovação em medicamentos, equipamentos e hospitais inteligentes, o que abre espaço para parcerias”, afirmou.

    Shirley Han Lu, especialista da Câmara de Comércio da China para Importação e Exportação de Medicamentos e Produtos de Saúde (CCCMHPIE), destacou o potencial conjunto em testes clínicos e medicina inovadora. “Brasil e China compartilham desafios como envelhecimento populacional e grandes territórios com áreas remotas. Isso cria um cenário de ganha-ganha”, observou, mencionando a Amazônia como um exemplo de contexto onde soluções chinesas já desenvolvidas podem ser aplicadas.

    Um futuro de colaboração estratégica

    Os painelistas concordaram que, com políticas adequadas e cooperação estratégica, Brasil e China podem acelerar significativamente o desenvolvimento de tecnologias em saúde e inteligência artificial. A consolidação de novas cadeias globais de valor nessas áreas é vista como um resultado provável desse alinhamento.

    O Summit Valor Econômico Brazil-China 2026, promovido pelo jornal Valor Econômico, é o terceiro evento do tipo realizado na China desde 2024. Esta edição contou com patrocínio de BYD, Prefeitura do Rio (Invest.Rio), Embratur, Governo do Estado do Rio de Janeiro e ApexBrasil, com apoio de Prefeitura de São Paulo (São Paulo Negócios), Suzano, CBMM, Alibaba, World Resources Institute, Instituto Clima e Sociedade (iCS), CNA Senar e Confederação Nacional da Indústria (CNI).

  • Capital de risco global mobiliza bilhões para controlar a inteligência artificial

    Capital de risco global mobiliza bilhões para controlar a inteligência artificial

    O capital de risco global está convergindo em direção à inteligência artificial, com um fundo recém-lançado demonstrando a escala e a direção desse movimento. Um novo fundo de 232 milhões de dólares, divulgado pela Air Street Capital, evidencia a intensa mobilização financeira para moldar a próxima geração de gigantes tecnológicos. Este movimento de bilhões de dólares não é apenas sobre inovação, mas sim sobre quem deterrá o controle sobre as tecnologias que definirão o futuro.

    A corrida pelo domínio da inteligência artificial se intensifica com aportes significativos, levantando questões sobre a soberania digital e a concentração de poder. A forma como esse capital é investido e as regiões que o recebem ditam não apenas avanços tecnológicos, mas também critérios, interesses e valores que moldarão essas ferramentas poderosas.

    Air Street Capital lidera captação bilionária para IA

    A Air Street Capital, sediada em Londres e comandada por Nathan Benaich, anunciou a captação de seu Fund III, no valor de 232 milhões de dólares (equivalente a R$ 1,16 bilhão). Este fundo será destinado a startups de inteligência artificial com foco em operações na Europa e na América do Norte. Os investimentos planejados variam entre 500 mil e 25 milhões de dólares, abrangendo desde empresas em estágios iniciais até fases mais avançadas de crescimento.

    Com essa nova rodada, a Air Street Capital eleva o total de ativos sob sua gestão para 400 milhões de dólares. Este crescimento expressivo, com a capacidade de captação multiplicada por mais de treze em apenas quatro anos, reflete a alta demanda de investidores institucionais por participação no boom da inteligência artificial.

    Portfólio e histórico de sucesso da gestora

    O sucesso da Air Street Capital não se baseia apenas em promessas. O portfólio da gestora já inclui empresas que se tornaram referências no setor de IA, alcançando o status de unicórnio. Entre os exemplos notáveis estão a Black Forest Labs, especializada em modelos de geração de imagens, e a ElevenLabs, que se destaca pela síntese de voz realista. Estas são apostas em áreas cruciais da nova economia digital, onde a fusão de imagem, linguagem e automação gera produtos de alto valor estratégico.

    A gestora também possui um histórico de saídas bem-sucedidas. A Adept, startup focada em agentes autônomos para tarefas computacionais, foi adquirida pela Amazon. Outro caso relevante foi o da britânica Graphcore, desenvolvedora de processadores para IA, que acabou sendo comprada pelo grupo japonês SoftBank. Esses movimentos reforçam a credibilidade da Air Street Capital junto a investidores que buscam retornos rápidos em setores de vanguarda.

    Concentração geográfica e implicações geopolíticas

    O foco geográfico declarado do Fund III, restrito à Europa e à América do Norte, revela mais do que uma preferência regional. Essa concentração indica quem está financiando e, consequentemente, moldando a inovação de ponta em inteligência artificial. A concentração de capital em poucos centros urbanos resulta na centralização dos critérios, interesses e valores que guiarão o desenvolvimento dessas tecnologias.

    O debate sobre inteligência artificial transcende a esfera econômica, tornando-se estratégico. Quem financia a IA em larga escala não está apenas investindo em startups, mas também adquirindo influência sobre plataformas, padrões técnicos e cadeias de dependência.

    Essa dinâmica coloca o Sul Global em risco de ficar à margem. Países como o Brasil podem se ver reduzidos a meros consumidores de sistemas desenvolvidos, treinados e regulamentados a partir de prioridades estabelecidas em centros como Londres, São Francisco e Nova York. Tal cenário acarreta consequências diretas para a soberania digital, limitando a autonomia na definição de ferramentas que organizam informação, trabalho, linguagem e tomada de decisão.

    A resposta da China e a lacuna brasileira

    A China, antecipando as implicações estratégicas da IA, investiu massivamente em pesquisa estatal, fortaleceu empresas nacionais como Baidu e SenseTime e construiu um ecossistema próprio e protegido. Em contraste, a abordagem predominante na Europa e América do Norte, exemplificada pela Air Street Capital, tem sido a aposta na força do capital financeiro privado.

    No Brasil, o debate público sobre IA ainda oscila entre o receio de desemprego e o fascínio superficial com chatbots. Falta uma estratégia nacional coesa que articule universidades, empresas estatais, o setor privado e instrumentos de financiamento público, como o BNDES. Sem essa coordenação, o país corre o risco de apenas reagir às inovações externas, em vez de participar ativamente na definição do futuro tecnológico.

    Oportunidades e desafios para o Brasil

    Apesar dos desafios, o Brasil possui ativos valiosos. Instituições como a Embrapa, a Fiocruz e as universidades públicas formam uma base científica e institucional robusta, capaz de sustentar um projeto de desenvolvimento tecnológico em IA. O que falta, contudo, é escala de financiamento e uma visão de longo prazo.

    É fundamental que o Brasil desenvolva instrumentos próprios de investimento em inovação. O objetivo não é replicar a lógica financeira internacional, mas sim apoiar pesquisa avançada em linguagem natural voltada para o português, modelos treinados com dados brasileiros e latino-americanos, e aplicações em áreas estratégicas como agricultura tropical, saúde pública e gestão urbana. Essa agenda é essencial para garantir a soberania digital e a capacidade de decisão em um mundo cada vez mais moldado pela inteligência artificial.

    A mobilização de bilhões em capital de risco para controlar a inteligência artificial é um sintoma claro da velocidade e escala com que as tecnologias definidoras do nosso tempo estão sendo moldadas. Para o Brasil, a pergunta é: construiremos nossas próprias ferramentas para disputar esse futuro ou aceitaremos que ele seja desenhado por outros e apenas revendido a nós?

  • Brasil se prepara para sua primeira eleição com IA, mas está pronto?

    Brasil se prepara para sua primeira eleição com IA, mas está pronto?

    Brasil se prepara para sua primeira eleição com IA, mas está pronto?

    O Brasil está prestes a vivenciar um marco em 2026: sua primeira eleição presidencial com a inteligência artificial (IA) desempenhando um papel proeminente. No entanto, a rapidez com que essas tecnologias evoluem levanta sérias dúvidas sobre a capacidade das instituições e da legislação atual em gerenciar os riscos associados, especialmente no que tange à desinformação e manipulação.

    Desde 2018, o país tem visto um aumento na manipulação de informações e campanhas de desinformação em períodos eleitorais. Em resposta, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem emitido resoluções para regular a publicidade online e o uso de tecnologias emergentes. Contudo, a ausência de um marco regulatório permanente para big techs e a rápida evolução da IA, como os modelos de linguagem grandes (LLMs), desafiam a eficácia dessas medidas.

    O avanço da IA e seus desafios eleitorais

    A popularização de ferramentas como o ChatGPT, lançadas em 2022, acelerou a preocupação com o uso de IA na disseminação de desinformação. Em 2024, uma resolução eleitoral brasileira incluiu pela primeira vez políticas relacionadas à IA generativa, exigindo a divulgação explícita de seu uso em anúncios políticos. Apesar disso, a eleição municipal foi marcada por desinformação gerada por LLMs, deepfakes e conteúdo político alterado.

    O cenário tecnológico evoluiu drasticamente nos últimos dois anos. O custo de execução de modelos de IA diminuiu, facilitando o desenvolvimento e a implantação de novas ferramentas. Lançamentos como Sora 2 e Nano Banana, que integram vídeo e imagens, e o avanço de agentes autônomos de IA, como Claude Code e GPT-5 agents, demonstram o ritmo acelerado dessa inovação.

    Brasil: um mercado ávido por tecnologia e seus riscos

    Os brasileiros são conhecidos por serem entusiastas e adotantes precoces de novas tecnologias. O país figura entre os três maiores em uso semanal do ChatGPT, com cerca de 140 milhões de mensagens trocadas diariamente. Essa receptividade, embora promissora para plataformas tecnológicas, também expõe a democracia a riscos, especialmente em períodos eleitorais críticos.

    Pesquisas indicam que chatbots de IA podem influenciar atitudes de eleitores por meio de conversas persuasivas. Além da capacidade de fornecer insights políticos, essas ferramentas apresentam riscos como outputs incorretos, alucinações e a rápida criação de conteúdo enganoso em larga escala e baixo custo.

    Novas regras e lacunas na regulamentação

    Diante da eleição presidencial de 2026, o TSE estabeleceu novas regras que incluem a divulgação obrigatória do uso de IA em publicidade política digital e um período de silêncio para conteúdo gerado por IA sobre candidatos. Há também uma responsabilidade ampliada das plataformas pela remoção de conteúdo não conforme.

    A resolução define “inteligência artificial” como “um sistema computacional desenvolvido com base em lógica, representação de conhecimento ou aprendizado de máquina, obtendo uma arquitetura que possibilite o uso de dados de entrada de máquinas ou humanos para, com graus variados de autonomia, produzir conteúdo sintético, previsões, recomendações ou decisões que atendam a um conjunto de objetivos pré-definidos e sejam capazes de influenciar ambientes virtuais ou reais”.

    No entanto, termos como “IA generativa”, “modelos de linguagem grandes” ou “chatbots” não são explicitamente definidos. A resolução tenta abranger sistemas de IA conversacional e plataformas de IA generativa, proibindo que provedores de serviços classifiquem, recomendem ou priorizem candidatos, expressem preferência eleitoral ou criem conteúdo audiovisual alterado.

    Desafios persistentes e o futuro da governança de IA

    Apesar de o TSE atualizar suas normas a cada dois anos, a janela para a regulamentação da IA é estreita, deixando lacunas críticas. A resolução atual não abrange ameaças de dispositivos vestíveis, como óculos inteligentes, nem o papel de companheiros de IA em conversas privadas. Além disso, não aborda o uso de agentes de IA por atores mal-intencionados ou o papel de “mini-techs” que oferecem serviços de IA com origens difíceis de rastrear.

    A decisão final sobre a resolução recai sobre um pequeno grupo de juízes do Supremo Tribunal Federal, que acumulam responsabilidades eleitorais e de regulação tecnológica. Essa sobreposição de funções e a limitada expertise técnica levantam questões sobre a capacidade do TSE de acompanhar a complexidade da IA.

    O modelo brasileiro de governança tecnológica tende a ser reativo e pontual. Na ausência de um quadro regulatório abrangente, o TSE se tornou o principal órgão regulador de IA no Brasil, mas sua atuação é limitada ao contexto eleitoral, deixando amplas questões de governança sem solução.

    O projeto de lei mais amplo para regulamentação da IA no Brasil (PL 2338/2023) está estagnado na câmara legislativa. Apesar dos apelos por urgência, a pressão da indústria de tecnologia tem dificultado o progresso. Essa falta de legislação nacional tem sobrecarregado o TSE, forçando-o a criar regulamentos complexos em um momento de crescente desenvolvimento e riscos da IA.

  • Brasil e Japão trocam experiências nos setores de telecomunicações, inteligência artificial e infraestrutura digital

    Brasil e Japão trocam experiências nos setores de telecomunicações, inteligência artificial e infraestrutura digital

    Brasil e Japão intensificam colaboração em tecnologias de ponta

    Representantes do Ministério das Comunicações do Brasil participaram do II Diálogo Brasil-Japão sobre Tecnologias da Informação e Comunicação, realizado em Tóquio. O encontro, que ocorreu entre 17 e 19 de março de 2026, evidenciou a forte relação histórica entre as nações e as vastas oportunidades de cooperação futura no campo das telecomunicações, inteligência artificial e infraestrutura digital. A delegação brasileira, composta por autoridades como a secretária-executiva Sônia Faustino e representantes da Anatel e dos Correios, buscou identificar desafios comuns e oportunidades para parcerias estratégicas.

    As discussões centrais giraram em torno de como enfrentar desafios semelhantes e capitalizar oportunidades únicas para o avanço conjunto. A tecnologia Open RAN emergiu como um ponto crucial no debate sobre telecomunicações. Essa abordagem, que utiliza interfaces abertas para desagregar hardware e software, promete aumentar a competitividade, reduzir custos, fortalecer a segurança da cadeia de suprimentos e impulsionar a inovação no setor.

    Infraestruturas digitais para a economia do futuro

    O papel das infraestruturas digitais, incluindo data centers, cabos submarinos e redes avançadas, como alicerce para o desenvolvimento da inteligência artificial e da economia digital, também foi um tópico central. Iniciativas brasileiras como o Programa Norte Conectado foram apresentadas como exemplo de compromisso com a inclusão digital sustentável. Em contrapartida, a experiência japonesa em planejamento e infraestrutura madura ofereceu referências valiosas.

    A transmissão de energia sem fio (WPT) foi outro tema abordado, com potencial para transformar o ecossistema da Internet das Coisas (IoT), especialmente em aplicações industriais e urbanas. A cooperação internacional e a construção de padrões globais, inclusive no âmbito da União Internacional de Telecomunicações (UIT), foram destacadas como fundamentais nesse avanço.

    Avanços na radiodifusão e desafios no setor postal

    No âmbito da radiodifusão, a conversa focou na TV 3.0. Essa nova geração de televisão, com recursos como alta definição, interatividade, áudio imersivo e integração com a internet, reforça o papel social da radiodifusão, especialmente em situações de emergência e na prestação de serviços públicos. “A TV 3.0 revigorará a radiodifusão, e a cooperação com o Japão e a padronização internacional são fundamentais para melhorar o sistema brasileiro. Não apenas uma nova TV, mas uma nova forma de interagir com a TV, lembrando que toda tecnologia tem responsabilidade social”, afirmou Sônia Faustino.

    O diálogo sobre o setor postal revelou desafios globais compartilhados: a queda no volume de correspondências físicas e o crescimento expressivo do comércio eletrônico. A necessidade de sustentabilidade econômica e ambiental nesse setor foi amplamente discutida. As experiências japonesas em inovação, automação e diversificação de serviços foram apontadas como importantes lições para o Brasil, que busca modernizar seu marco regulatório e garantir a universalização dos serviços com eficiência.

    Visitas técnicas a gigantes da tecnologia

    A comitiva brasileira aproveitou a oportunidade para realizar visitas técnicas a empresas de destaque no mercado, como Sony, OREX e Toshiba. Essas visitas tiveram como objetivo a identificação e concretização de soluções de alta tecnologia que moldarão o futuro da infraestrutura digital e da logística nos próximos anos.

  • Inteligência artificial e rotulagem obrigatória: um debate urgente

    Inteligência artificial e rotulagem obrigatória: um debate urgente

    Inteligência artificial e rotulagem obrigatória

    A rápida evolução da inteligência artificial (IA) generativa tem levantado preocupações globais sobre a veracidade do conteúdo que consumimos. A escalada do conflito no Oriente Médio, por exemplo, foi marcada pela disseminação em tempo real de vídeos e imagens, uma parte significativa dos quais, segundo o O Globo [1], era falsa ou manipulada por IA. Esse cenário, que se repetiu em tragédias como as chuvas em Minas Gerais, onde imagens falsas circularam em meio à comoção, evidencia a necessidade urgente de medidas para distinguir o real do artificial.

    O uso de IA para criar narrativas contrafactuais, embora possa ter fins lúdicos, como a famosa imagem do Papa Francisco com um casaco estiloso em 2023 [3], também pode servir a propósitos perigosos. Governos poderiam usá-la para manipular informações sobre guerras, ou indivíduos para espalhar pânico e desinformação. A facilidade de acesso a ferramentas de IA por qualquer usuário de smartphone amplia esse risco, como visto em vídeos de líderes políticos anunciando rendições ou em falsas explosões próximas a edifícios governamentais [4, 5].

    Usos comerciais e o grave risco de manipulação

    No âmbito comercial, a IA tem sido empregada para promover produtos e serviços de forma enganosa. Um exemplo notório foi um vídeo falso do ex-jogador Ronaldo Fenômeno promovendo um jogo de azar, que permaneceu no ar por meses, gerando vendas antes de ser removido pela Meta [6]. O cenário se torna ainda mais alarmante com o surgimento de ferramentas como o Grok, do X (antigo Twitter). Lançado em dezembro de 2024, o Grok, além de suas funcionalidades de resposta, passou a gerar imagens fictícias a partir de pessoas reais. No início de 2026, usuários utilizaram a ferramenta para criar montagens sexualizadas e pornográficas, inclusive envolvendo crianças, levantando sérias questões éticas e legais [7].

    Os dados indicam uma escalada preocupante: pesquisas apontam para um crescimento de 308% em conteúdos falsos criados por IA no Brasil entre 2024 e 2025 [8]. O crescente realismo dessas criações dificulta cada vez mais a distinção entre o que é genuíno e o que é fabricado, tornando imperativa a adoção de medidas de controle.

    Avanços na regulação: Coreia do Sul e China como exemplos

    Diante deste panorama, a regulamentação da IA se torna um tema central. A Coreia do Sul, pioneira na matéria, aprovou em dezembro de 2024 a “Lei Básica sobre IA”, em vigor desde janeiro de 2026. Esta legislação exige que empresas informem os consumidores sobre o uso de IA generativa em seus produtos e serviços, além de identificar claramente conteúdos produzidos por essas tecnologias quando não puderem ser facilmente diferenciados da realidade. A lei sul-coreana prevê multas significativas para os infratores, buscando criar uma “base segura e confiável para apoiar a inovação em IA” [9].

    A China também implementou diretrizes para a rotulagem obrigatória de materiais gerados por IA e recomendações automatizadas [10]. Esses exemplos internacionais demonstram um movimento global em direção à transparência.

    O Brasil e a regulamentação em andamento

    O Brasil ainda não possui uma lei abrangente dedicada à IA, embora o Projeto de Lei nº 2338/2023 esteja em debate no Senado Federal. Contudo, não há um vácuo normativo total. O Código Civil, em seu artigo 20, já permite a proteção da imagem e voz contra exploração ilícita por ferramentas de IA [11]. A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) também coíbe tais práticas.

    Em um contexto eleitoral, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deu um passo importante ao aprovar, em março de 2026, a Resolução 23.755/2026. A nova norma altera a Resolução 23.610/2019 e estabelece regras claras para o uso de IA nas eleições. Entre as proibições, destacam-se a impossibilidade de sistemas de IA indicarem ou sugerirem candidatos e a vedação à circulação de conteúdos gerados artificialmente nas 72 horas anteriores e 24 horas posteriores ao pleito [13].

    O TSE também impõe a rotulagem obrigatória de conteúdo produzido por IA em propaganda eleitoral. A resolução determina que, ao utilizar IA para criar, modificar ou manipular imagens ou sons, o responsável pela propaganda deve informar de maneira explícita, destacada e acessível que o conteúdo foi fabricado ou manipulado e qual tecnologia foi empregada [14]. Essa exigência de rotulagem se estende a chatbots e avatares, com a vedação de simulações de interlocução com candidatos ou pessoas reais. A violação acarreta a remoção imediata do conteúdo ou a indisponibilidade do serviço [15].

    A rotulagem como ferramenta de mitigação de riscos

    A rotulagem obrigatória, nos moldes do que já preconiza o Código de Defesa do Consumidor ao exigir que a publicidade seja facilmente identificável [16], visa mitigar os riscos de práticas danosas sem proibi-las por completo. Ao informar os destinatários sobre a intervenção tecnológica, permite que a avaliação da mensagem seja feita com base no juízo crítico individual, ciente de que há uma manipulação artificial.

    A proliferação descontrolada de conteúdos falsos via IA, exemplificada em eventos internacionais e nacionais, reforça a urgência da rotulagem obrigatória. Em um ano eleitoral sensível para a democracia brasileira, essa medida se configura como um escudo essencial contra a manipulação da sociedade, garantindo que os cidadãos possam tomar decisões informadas, com plena ciência da origem do conteúdo que consomem.

  • Menina brasileira de 17 anos cria forma inédita de descobrir o autismo com inteligência artificial

    Menina brasileira de 17 anos cria forma inédita de descobrir o autismo com inteligência artificial

    Menina brasileira de 17 anos cria forma inédita de descobrir o autismo com inteligência artificial

    Aos 17 anos, a estudante mineira Millena Xavier, de Juiz de Fora, tem chamado a atenção do país e do mundo por sua capacidade de unir inteligência artificial (IA), olimpíadas científicas e projetos educacionais de grande alcance. Sua inovação, criada ainda durante o ensino médio, visa facilitar a descoberta de sinais do transtorno do espectro autista (TEA) através de uma ferramenta inédita de IA, posicionando-a como uma jovem pesquisadora dedicada a problemas sociais concretos.

    A criação de Millena, denominada Autinosis, é descrita como uma ferramenta de inteligência artificial voltada à triagem de sinais do autismo. O projeto nasceu da observação atenta às dificuldades de acesso ao diagnóstico, um ponto sensível para muitas famílias brasileiras que enfrentam longas esperas e desigualdade na avaliação especializada.

    Autinosis: inteligência artificial na triagem do autismo

    Diferentemente de uma solução definitiva, a Autinosis propõe-se a ser um apoio crucial no processo de identificação inicial. Essa distinção é fundamental para entender a relevância do trabalho de Millena, que transcendeu o ambiente escolar e alcançou o reconhecimento científico. Em janeiro de 2025, a estudante foi premiada na categoria Ensino Médio do 6º Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher, promovido pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), com o trabalho “Autinosis: Inteligência Artificial na Triagem do Diagnóstico de Autismo”.

    A repercussão da pesquisa não se limitou a círculos de empreendedorismo jovem, consolidando a imagem de Millena como uma pesquisadora engajada com problemas reais.

    Projeto educacional amplia acesso a olimpíadas científicas

    Além do desenvolvimento da Autinosis, Millena Xavier é a criadora da Prep Olimpíadas, uma organização educacional focada em democratizar o acesso de jovens, especialmente da rede pública, a competições acadêmicas. Segundo a Forbes Brasil, a iniciativa já realizou palestras em mais de 200 escolas e desenvolveu o Prep AI, uma ferramenta gratuita para auxiliar estudantes em diversas disciplinas e em dúvidas sobre olimpíadas do conhecimento.

    O alcance da Prep Olimpíadas é notável. O Correio Braziliense informou que a jovem, com o apoio de mais de 300 voluntários, expandiu a iniciativa para estudantes em situação de vulnerabilidade social, atingindo mais de 100 mil alunos. Desse total, 87 mil jovens participaram de olimpíadas, conquistando medalhas e menções honrosas.

    Millena participou de cerca de 70 olimpíadas em dois anos, colecionando 38 premiações. Essa vasta experiência contribuiu para seu domínio em informática, tecnologia e IA, além de reforçar seu compromisso em usar seu conhecimento para criar soluções para estudantes que enfrentam barreiras educacionais.

    Reconhecimento internacional e impacto social

    A trajetória de Millena ganhou destaque internacional em 2024, quando foi selecionada entre os 50 finalistas do Global Student Prize e, posteriormente, alcançou o Top 10 da premiação. A organização confirmou a brasileira entre os dez finalistas daquele ano, que reuniu mais de 11 mil indicações de 176 países.

    A candidatura ao prêmio internacional se baseou em duas frentes que marcam sua carreira: a democratização do acesso a olimpíadas científicas e o desenvolvimento de IA com aplicação prática e impacto social.

    Mudança de cidade: busca por oportunidades acadêmicas

    Aos 15 anos, Millena tomou a decisão de deixar Juiz de Fora para estudar em Viçosa, em um colégio federal que oferecia maior suporte a atividades extracurriculares. Essa mudança, motivada pela falta de incentivo em seu ambiente escolar anterior, reforça a narrativa de uma jovem que luta por acesso, permanência e oportunidade no campo da ciência e tecnologia.

    A convergência entre produção científica na adolescência, atuação educacional em larga escala e o uso de IA em questões sociais de alta sensibilidade solidifica Millena Xavier como um notável caso brasileiro de inovação estudantil, com repercussão nacional e internacional.

  • Inteligência artificial na medicina passa a ter novas regras no Brasil

    Inteligência artificial na medicina passa a ter novas regras no Brasil

    Inteligência artificial na medicina passa a ter novas regras no Brasil

    O Conselho Federal de Medicina (CFM) estabeleceu um marco regulatório inédito para o uso da Inteligência Artificial (IA) na prática médica brasileira. A Resolução CFM nº 2.454/2026 define diretrizes claras sobre responsabilidade clínica, classificação de riscos, governança de dados e os direitos de médicos e pacientes.

    Esta regulamentação surge em um cenário de rápida expansão da tecnologia na saúde. Segundo a pesquisa TIC Saúde 2024, 17% dos médicos já utilizam IA generativa em suas rotinas, indicando uma adoção crescente e a necessidade de um direcionamento ético e seguro.

    IA na medicina: um divisor de águas

    A urgência da regulamentação se evidencia no impacto direto da IA no diagnóstico médico. Nos Estados Unidos, estima-se que erros diagnósticos afetem 1 em cada 20 adultos anualmente. Ferramentas como o MAI-DxO da Microsoft demonstraram acurácia superior à de médicos experientes em análises complexas, levantando a necessidade de diretrizes claras.

    O especialista Kenneth Corrêa, autor e professor de MBA na FGV, ressalta a importância da resolução: “Estamos em um ponto de virada. A inteligência artificial deixou de ser uma promessa para o futuro da saúde e se tornou uma realidade do presente. O CFM reconheceu isso. Ao criar um marco regulatório, o conselho não está freando a inovação, está garantindo que ela chegue ao paciente de forma segura, ética e responsável”.

    “Quando um sistema de IA acerta a maior parte dos diagnósticos complexos e um grupo de médicos experientes acerta apenas 20%, é um sinal claro de que a tecnologia tem muito a contribuir com a prática do médico. Mas é também um alerta, se não houver regulamentação, governança e formação adequada, corremos o risco de usar uma ferramenta poderosa sem saber exatamente o que estamos fazendo com ela. E na saúde, os erros têm consequências reais.”

    O que muda com a nova resolução

    A resolução centraliza o uso da IA como um instrumento de apoio à prática clínica, mas mantém a decisão final sobre diagnóstico, tratamento e prognóstico sob inteira responsabilidade do médico. Fica expressamente proibido que sistemas de IA comuniquem diagnósticos ou decisões terapêuticas diretamente aos pacientes sem a mediação de um profissional de saúde.

    Os sistemas de IA foram classificados em quatro níveis de risco (baixo, médio, alto e inaceitável), considerando fatores como impacto nos direitos fundamentais, autonomia do sistema e sensibilidade dos dados. Hospitais e instituições que adotarem ferramentas de IA próprias deverão formar uma Comissão de IA e Telemedicina.

    Corrêa destaca a categorização por risco como um ponto crucial: “Não dá para tratar todas as aplicações de IA na saúde como se fossem iguais. A resolução do CFM captura essa complexidade ao estabelecer níveis de risco, aproximando o Brasil das melhores práticas regulatórias internacionais, como o AI Act da União Europeia. É um marco técnico sólido”.

    Autonomia médica e direitos do paciente garantidos

    A norma protege a autonomia do profissional de saúde, impedindo que instituições obriguem médicos a seguir recomendações de sistemas de IA. O médico tem o direito de questionar ou desativar a ferramenta, sem sofrer penalidades, desde que sua conduta seja ética e tecnicamente adequada.

    Para os pacientes, a resolução assegura o direito de serem informados sobre o uso da IA em seu atendimento, a possibilidade de recusar tais ferramentas e a proteção integral de seus dados de saúde, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

    “A IA é um copiloto extraordinário. Ela processa volumes de dados que nenhum ser humano conseguiria analisar com a mesma velocidade, identifica padrões sutis, amplia a capacidade diagnóstica, mas o piloto continua sendo o médico. A resolução do CFM deixa isso absolutamente claro, e isso é fundamental. Porque quando falamos de saúde, estamos falando de confiança, e a confiança do paciente precisa estar ancorada em um ser humano que responde por aquela decisão”, afirma Corrêa.

    Mercado em expansão e o Brasil no cenário global

    O mercado global de IA na saúde deve ultrapassar US$ 200 bilhões até 2030. No Brasil, hospitais de referência já exploram modelos preditivos para otimização de equipes e redução de custos. A resolução publicada pelo CFM posiciona o país alinhado às tendências internacionais de regulação responsável.

    “O Brasil acaba de dar um passo que coloca o país no mesmo patamar de nações que levam a sério tanto a inovação quanto a segurança. Regulamentar não é o oposto de inovar, é o que permite que a inovação escale com credibilidade. O mercado de saúde digital brasileiro vai crescer muito nos próximos anos, e para isso necessita de um marco regulatório”, conclui Corrêa.

  • Inteligência artificial reacende debates na Câmara dos Deputados

    Inteligência artificial reacende debates na Câmara dos Deputados

    Inteligência artificial em foco na Câmara dos Deputados em 2026

    A inteligência artificial (IA) voltou a ser tema central de discussões na Câmara dos Deputados em fevereiro de 2026. Dois novos projetos de lei foram apresentados, intensificando o debate sobre a regulamentação e o desenvolvimento da IA no Brasil. Essas propostas somam-se ao já em andamento Projeto de Lei (PL) 2338/2023, que estabelece um marco legal para a IA.

    As novas iniciativas visam definir princípios estruturantes para a IA no país e estabelecer regras específicas para sistemas considerados de alto impacto. A discussão reflete uma tendência global de regulamentação baseada em riscos, com implicações diretas para empresas, desenvolvedores e usuários de sistemas de IA. O avanço dessas pautas já se conecta a importantes frentes de compliance, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), a propriedade intelectual e a regulação do setor de telecomunicações.

    Impactos do PL 2338/2023 na proteção de dados e propriedade intelectual

    O PL 2338/2023 reforça uma abordagem de regulação por riscos, alinhada à LGPD. A proposta enfatiza os direitos dos indivíduos afetados por sistemas de IA, promovendo transparência e a possibilidade de revisão humana em decisões automatizadas. A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) tem seu papel institucional fortalecido neste ecossistema.

    No campo da propriedade intelectual, o debate gira em torno do text and data mining (TDM), crucial para o treinamento de modelos de IA, especialmente os generativos. O projeto aborda questões como a transparência no treinamento por meio de sumários de dados, mecanismos de oposição (opt-out) para titulares, a discussão sobre remuneração e o reforço dos direitos autorais.

    Regulação de IA no setor de telecomunicações

    Iniciativas de IA no setor de telecomunicações também devem observar a regulamentação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). O Regulamento Geral dos Serviços de Telecomunicações (RGST), aprovado pela Resolução ANATEL nº 777/2025, já incorpora princípios aplicáveis ao uso de IA. Adicionalmente, o Regulamento de Segurança Cibernética Aplicada ao Setor de Telecomunicações (R-Ciber), de 2020, impõe diretrizes como security by design e privacy by design.

    A Anatel também pondera sobre o uso de IA em sua atividade fiscalizatória, conforme discutido na Consulta Pública 31/2025. O objetivo é garantir a vigilância sobre aplicações de alto risco sem burocratizar indevidamente o uso da tecnologia.

    PL 704/2026: Princípios e prioridades para a IA no Brasil

    O Projeto de Lei 704/2026 busca estabelecer as prioridades estruturantes e os princípios orientadores para o desenvolvimento, implementação e uso da inteligência artificial em todo o território nacional. Um dos focos centrais é o combate à corrupção e a redução das desigualdades sociais e regionais como pilares da política nacional de IA.

    O projeto propõe que o uso da IA priorize:

    • A prevenção e detecção de práticas corruptas e fraudes.
    • Transparência e rastreabilidade em decisões automatizadas.
    • A redução de desigualdades sociais, econômicas, raciais, regionais e digitais.
    • O reforço da inclusão e do desenvolvimento econômico responsável.

    Áreas como análise de contratos, concessão de crédito e compras públicas são apontadas como prioritárias para aplicação da IA. O PL 704/2026 também veda sistemas que ampliem desigualdades e exige avaliação de impacto social.

    PL 762/2026: Regulação para sistemas de IA de alto impacto

    O Projeto de Lei 762/2026 foca em um marco regulatório específico para sistemas de IA considerados de alto impacto ou críticos. Estes sistemas deverão passar por uma Avaliação de Impacto de Inteligência Artificial (AIA).

    Os principais pontos do PL 762/2026 incluem:

    • Regras de classificação, segurança, privacidade, governança e responsabilização.
    • Requisitos obrigatórios para projeto, implementação e operação.
    • Certificação prévia e registro público antes da entrada em operação.
    • Competência da ANPD para emitir certificações e definir condicionantes.

    O projeto garante aos titulares o direito à informação sobre o uso de IA, acesso à explicabilidade e mecanismos de revisão humana para decisões prejudiciais. Além disso, propõe alterar o Marco Civil da Internet e o Código de Defesa do Consumidor para que provedores e plataformas mantenham registros para auditoria e publiquem relatórios de transparência. Em relações de consumo, o fornecedor de sistemas de IA de alto impacto terá responsabilidade objetiva por danos e deverá informar previamente o uso da tecnologia, garantindo canais para revisão humana.

    As novas propostas legislativas sinalizam um aumento significativo no engajamento do Poder Legislativo com as matérias relacionadas à IA a partir de 2026, buscando equilibrar inovação com segurança e direitos fundamentais.

  • Inteligência artificial: só 10% das empresas dizem que a implementação deu certo

    Inteligência artificial: só 10% das empresas dizem que a implementação deu certo

    Inteligência artificial: só 10% das empresas dizem que a implementação deu certo

    A inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma promessa para se tornar parte integrante da rotina de boa parte das empresas brasileiras. No entanto, transformar essa adoção em uma vantagem competitiva real ainda representa um desafio considerável. Um estudo recente revela que, apesar da ampla utilização da tecnologia, a maioria das organizações ainda navega em estágios intermediários de maturidade na sua implementação.

    A terceira edição do Panorama de Sentimento das Lideranças 2026, pesquisa da Newnew que consultou mais de 300 líderes de médias e grandes empresas no Brasil, aponta que 80% delas utilizam algum tipo de aplicação de IA. Contudo, apenas 11% dessas lideranças avaliam que a implementação “deu super certo”. A maior parte das companhias se encontra em um nível intermediário, indicando que os obstáculos para o sucesso não são primariamente técnicos, mas sim humanos e estratégicos.

    Entraves na gestão e estratégia

    Os gargalos identificados pela pesquisa estão majoritariamente ligados à cultura organizacional, à carência de habilidades críticas e à dificuldade de as lideranças definirem o direcionamento estratégico. Mariana Achutti, CEO da Newnew, explica que a discussão sobre IA mudou. “A discussão saiu do campo da adoção e entrou no campo da gestão. O que ainda não está claro é como estruturar direção, critérios e responsabilidade para que ela gere vantagem competitiva real”, afirma.

    Os fatores que mais pressionam os executivos brasileiros, de acordo com os entrevistados, incluem:

    • Saúde mental: 41%
    • Produtividade que não acompanha o aumento das demandas: 31%
    • Déficit de talentos qualificados: 28%
    • Dificuldade de implementar novas tecnologias: 22%

    Falta de governança limita resultados

    Outro ponto crucial destacado pelo estudo é a falta de governança. Mais da metade das empresas (53%) ainda se encontra em estágios inexistentes ou embrionários na criação de diretrizes, métricas e critérios para orientar o uso da IA. Isso significa que a implementação da tecnologia avançou mais rapidamente do que a construção de estruturas sólidas para orientar decisões e mitigar riscos operacionais e reputacionais.

    Comparado a cenários projetados pelo Fórum Econômico Mundial para 2030, o Brasil apresenta um cenário intermediário. Há um notável entusiasmo e uma adoção tecnológica acelerada, porém, ainda falta a estruturação necessária para converter essa inovação em ganhos competitivos sustentáveis.

    O salto é humano e estratégico

    Mariana Achutti ressalta que o próximo grande avanço não será puramente tecnológico, mas sim humano. Será necessário desenvolver mais pensamento crítico, aprimorar a capacidade de decisão e fomentar a responsabilidade coletiva dentro das organizações.

    O descompasso entre a velocidade de adoção e a capacidade real de implementação nas empresas, segundo Achutti, é um fenômeno comum a tecnologias disruptivas. A adoção inicial ocorre pela experimentação, mas a transformação estrutural demanda mais tempo. “Transformar essa adoção em vantagem competitiva exige algo mais profundo: governança, estratégia clara e integração com o modelo de negócio”, explica. Muitas empresas adotaram ferramentas de IA antes mesmo de definir processos, métricas ou prioridades estratégicas claras, resultando em tecnologia presente, mas não plenamente integrada à tomada de decisão.

    Preparação e adaptação contínua

    A questão do preparo de profissionais e organizações é uma combinação de fatores. Existe uma lacuna de competências, tanto nas pessoas quanto nas próprias empresas. O mercado de trabalho está em transição, com habilidades técnicas se tornando obsoletas rapidamente. Esperar profissionais totalmente prontos para tecnologias recentes como a IA é irrealista. As organizações mais bem-sucedidas são aquelas que colocam a aprendizagem contínua no centro de suas estratégias, estruturando programas de reskilling e criando espaços seguros para experimentação.

    O estudo também aponta que parte das empresas adota IA para sinalizar modernidade. O risco é que a adoção se materialize primeiramente no discurso. Embora a IA já esteja bastante presente no dia a dia, muitas implementações ainda focam em ganhos incrementais, como automação de tarefas. O salto estratégico ocorre quando a IA passa a influenciar decisões, modelos de negócio e o próprio desenho do trabalho.

    A fase atual exige maturidade. Organizações que estruturarem governança, métricas de impacto e focarem no desenvolvimento de habilidades estarão aptas a transformar a IA em vantagem competitiva. As demais provavelmente continuarão com um uso pontual, sem capturar todo o potencial da tecnologia.