GetReal usa forense, IA e experiência acadêmica para enfrentar a era dos deepfakes
A proliferação de deepfakes cada vez mais realistas criou uma nova frente crítica na segurança digital, e a startup GetReal chega ao mercado afirmando ter ferramentas capazes de identificar e mitigar essas ameaças para governos e grandes empresas. A empresa anunciou um aporte de US$ 17,5 milhões que será destinado à pesquisa e desenvolvimento, expansão de equipe e crescimento comercial.
Com sede em San Mateo, a GetReal lançou uma plataforma de forense como serviço que combina uma interface web, API e integrações para análises de mídia. Entre os módulos divulgados estão o painel de exposição a ameaças e as ferramentas “Inspect”, voltada a proteger executivos de alto perfil contra personificações, “Protect”, para rastrear mídia, e “Respond”, que inclui equipes humanas para investigações mais aprofundadas.
Uma aposta que atraiu investidores e clientes estratégicos
A rodada Série A trouxe investidores do setor de cibersegurança e inteligência artificial, além de parceiros estratégicos de tecnologia e finanças, setores que já sentem o impacto dos deepfakes em operações e governança. A GetReal foi incubada por uma dessas empresas desde 2022 e emergiu de forma discreta em junho de 2024, após uma rodada seed anterior com nomes relevantes do mercado.
Fontes da empresa destacam que instituições financeiras e órgãos reguladores passaram a pedir soluções para personificações deepfake, especialmente após incidentes em que executivos foram alvo de fraudes. Segundo a reportagem, “Questões sobre personificações deepfake foram levantadas após CEOs terem participado de entrevistas de voz. Eles foram vítimas tanto da própria personificação quanto de fraudes decorrentes dela”.
Do trabalho de Hany Farid para um serviço escalável
A GetReal foi cofundada por Hany Farid, pioneiro nas técnicas de detecção de manipulações em imagens digitais e hoje na UC Berkeley. A empresa nasceu da ideia de transformar o processo investigativo e forense de Farid em um produto escalável. Como explicou Matt Moynahan, CEO da GetReal, “Se você acha que a cibersegurança já sofre com a falta de profissionais, prepare-se para lidar com a forense”.
Moynahan também alertou para a amplitude da ameaça: “Para ser sincero, nunca presenciei uma ameaça tão onipresente”, e acrescentou que “o que vimos nos últimos 20 anos é a migração da ameaça para o usuário final”. A ideia central da empresa é pegar décadas de técnicas forenses e colocá-las em operação como um serviço na nuvem, transformando o conhecimento especializado em ferramentas que possam ser aplicadas em escala.
No relato da origem, Farid passou de atuação acadêmica e consultas informais a setores como mídia e jurídico, para a cofundação do produto em parceria com investidores e executivos do setor. “Não há ninguém que analise esses desafios da forma que o Hany faz”, ressaltou Moynahan. “Mas o Hany não consegue escalar. Por isso, basicamente, transformamos o trabalho dele em um ‘serviço Hany’ na nuvem.”
Desafios técnicos, uso governamental e o futuro dos deepfakes
A plataforma atual da GetReal foca em mídia visual e sonora, mas a empresa reconhece que deepfakes baseados em texto e outras formas de personificação representam riscos emergentes. O produto foi desenhado com a necessidade de engenharia reversa dos novos aplicativos geradores de deepfake, apoiado em técnicas que, segundo a empresa, “desenvolvemos há 20 anos e que ainda funcionam hoje”.
Agências de inteligência e autoridades governamentais já demonstram interesse em ferramentas que evitem decisões equivocadas induzidas por mídias falsificadas. Para o setor privado, clientes de grande porte e conselhos de administração buscam soluções que protejam executivos e operações, enquanto a lacuna de especialistas em ciber-forense faz da oferta da GetReal uma alternativa para organizações que não conseguem montar centros próprios de investigação.
Apesar do otimismo, os desafios permanecem. A escala de criação de deepfakes, a rapidez das inovações nos modelos geradores e a necessidade de coordenar sinais técnicos com investigações humanas tornam a equação complexa. A GetReal aposta que combinar automação, conhecimento acadêmico e equipes especializadas pode reduzir o tempo de detecção e respostas efetivas, e que o aporte de US$ 17,5 milhões permitirá acelerar esse desenvolvimento.
O movimento da GetReal mostra que o combate aos deepfakes já deixou o estágio experimental e se transforma em mercado, com soluções voltadas a proteger pessoas, empresas e, potencialmente, decisões de Estado. Resta ver se a plataforma conseguirá acompanhar a evolução das técnicas de falsificação e manter clientes e investidores confiantes na sua capacidade de identificar e mitigar riscos antes que causem danos maiores.








