Editoras buscam engenheiros de IA: O futuro dos livros e a proteção de direitos autorais

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Editoras buscam engenheiros de IA: O futuro dos livros e a proteção de direitos autorais

Gigantes como Penguin Random House e Macmillan investem em inteligência artificial para otimizar operações e marketing, enquanto autores temem o uso indevido de suas obras.

A corrida pela eficiência e a revolução da IA no mercado editorial

O mercado editorial está passando por uma transformação silenciosa, impulsionada pela inteligência artificial. Grandes nomes como a Macmillan e a Penguin Random House estão ativamente recrutando engenheiros de IA, sinalizando um movimento estratégico para integrar essa tecnologia em suas operações. A Macmillan, por exemplo, busca dois “gerentes de soluções em IA” com o objetivo de identificar novas aplicações, desenvolver produtos inovadores e resolver desafios complexos do negócio. Essas funções envolvem a criação de protótipos, o redesenho de fluxos de trabalho e o treinamento de equipes para a adoção de ferramentas de IA no dia a dia.

A editora já utiliza a IA em diversas frentes, desde a otimização da visibilidade de livros através da etiquetagem de palavras-chave, até a geração de resumos de documentos, traduções e moderação de conteúdo. Contudo, a empresa reforça seu compromisso com os criadores, afirmando: “Somos uma editora de histórias humanas, escritas por pessoas”. Essa declaração busca equilibrar o avanço tecnológico com a valorização do trabalho autoral.

Paralelamente, a Penguin Random House, a maior editora de livros comerciais do mundo, está em busca de um engenheiro sênior de soluções em IA. O foco principal é o desenvolvimento de sistemas para aprimorar o marketing e a descoberta de livros, além de garantir a escalabilidade dessas aplicações. Um porta-voz da empresa, Claire von Schilling, explicou que a IA já auxilia na “excelência operacional”, otimizando o gerenciamento de estoque e a previsão de tiragens. Em janeiro de 2025, a controladora da Penguin Random House, a Bertelsmann, anunciou a implementação do ChatGPT Enterprise da OpenAI para seus colaboradores.

A dualidade da IA: eficiência operacional versus direitos autorais

A adoção de ferramentas de IA por essas editoras não as impede de defender ativamente os direitos autorais de seus autores. No final de 2024, a Penguin Random House começou a incluir avisos em seus livros, proibindo explicitamente o uso ou reprodução de suas obras para o treinamento de modelos de IA. “Como editoras, nossa principal responsabilidade é com nossos autores. Acima de tudo, estamos comprometidos em proteger sua propriedade intelectual e direitos autorais”, reiterou Schilling. Essa postura reflete a crescente preocupação do setor com a exploração não autorizada de conteúdo criativo.

O desafio para as editoras também se estende à comunicação pública sobre seu posicionamento em relação à IA, especialmente diante da forte oposição de muitos escritores. A comunidade literária, em grande parte, enxerga a tecnologia como uma “máquina que absorve” o trabalho criativo para gerar produtos concorrentes que ameaçam a subsistência dos autores. Figuras renomadas como Margaret Atwood descreveram a IA como uma “poeta ruim” e um “extrator de dados”, enquanto Zadie Smith a considera “intrinsecamente vazia”. George R. R. Martin, por sua vez, classificou a IA como “a máquina de plágio mais cara e intensiva em energia do mundo”, integrando uma ação coletiva contra a OpenAI em 2023.

O temor dos autores é compreensível. Em dezembro de 2025, a Amazon enfrentou críticas após introduzir um recurso de IA no Kindle que permitia aos leitores “conversar” com os livros. A Authors Guild e diversos escritores se revoltaram, temendo que os modelos de IA tivessem sido treinados com livros protegidos por direitos autorais sem o devido consentimento ou compensação, e sem oferecer opções de exclusão para autores ou leitores. A Amazon, em resposta, afirmou que o conteúdo dos livros não é utilizado para treinar o modelo subjacente, mas sim que a ferramenta é uma extensão da funcionalidade de busca existente no Kindle.

O panorama jurídico e as negociações de licenciamento

No campo jurídico, as empresas de IA têm obtido vitórias significativas. Em junho de 2025, um juiz distrital dos EUA decidiu que o uso de obras protegidas para treinar modelos de IA se enquadra na doutrina do “uso justo”. Processos semelhantes contra Meta e Stability AI também foram, em sua maioria, decididos a favor das empresas de IA. Casos ainda pendentes, como a ação movida por autores e veículos de mídia contra a OpenAI, que exigiu o compartilhamento de 20 milhões de registros de bate-papo, continuam a moldar o debate.

É importante ressaltar que o download de versões piratas de livros, provenientes de bibliotecas digitais clandestinas, permanece ilegal. Em agosto de 2025, a Anthropic chegou a um acordo extrajudicial de pagamento de US$ 1,5 bilhão a autores de 500 mil livros encontrados em um desses repositórios, sem admitir culpa.

Diante desse cenário, algumas editoras optaram por negociar contratos de licenciamento milionários com empresas de IA. No ano fiscal de 2025, a editora Wiley registrou uma receita de US$ 40 milhões apenas com acordos de licenciamento de IA, revendendo obras para empresas como a Anthropic. Para editoras menores, no entanto, licenciar todo o seu portfólio para empresas de IA ainda representa uma perspectiva desafiadora.

O futuro incerto e as emoções conflitantes sobre a IA

Apesar das controvérsias, as editoras demonstram um interesse crescente em testar as ferramentas de IA. A tecnologia pode, por exemplo, auxiliar na análise e no fornecimento de feedback editorial sobre o vasto volume de manuscritos recebidos. “Mas, atualmente, se um autor soubesse que isso está acontecendo, ele ficaria extremamente indignado”, comentou Jane Friedman, especialista em mercado editorial.

Thad McIlroy, consultor e analista de tecnologia editorial, resume bem o dilema enfrentado pelo setor: “As editoras reconhecem que essa ferramenta vai torná-las mais eficientes, permitindo que façam mais trabalho com menos mão de obra e, assim, vendam mais livros. Mas elas também enfrentam o dilema de quantas ferramentas incorporar antes que a notícia se espalhe”. A busca por eficiência e a proteção dos direitos autorais configuram um dos maiores desafios do mercado editorial na era da inteligência artificial.

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