IAs treinadas com vídeos do YouTube sem autorização, big techs usaram canais brasileiros

ias treinadas com vídeos do youtube sem autorização, big techs usaram canais brasileiros

Escrito por

em

Como vídeos do YouTube foram usados para treinar IAs

Investigação revela uso massivo de repositórios de vídeo em treinamentos de modelos

Relatórios e artigos acadêmicos apontam que grandes empresas de tecnologia recorreram a coleções massivas de vídeos do YouTube para desenvolver componentes essenciais de sistemas de inteligência artificial. O uso desses acervos, muitas vezes obtidos por raspagem automatizada, envolve publicações de criadores, inclusive de canais brasileiros, e levanta dúvidas sobre direitos autorais e transparência.

O que foi feito e por que importa

Pesquisadores e empresas reuniram bases de vídeo para treinar encoders, ferramentas que analisam e contextualizam cenas, etapa considerada crucial para modelos multimodais e aplicações como busca, moderação e geração de vídeo. Anderson Soares, diretor do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da UFG, disse à Folha de S.Paulo que ferramentas de vídeo que atuam como encoders são “excelentes pontos de partida” para construir sistemas mais complexos.

Entre as coleções citadas está a YT-Temporal-180M, reunida em 2021 por pesquisadores do Allen Institute for AI e da Universidade de Washington, que afirmaram ter usado a API do YouTube para baixar vídeos sem consultar os criadores. Pesquisas acadêmicas e artigos de big techs mencionam outras bases obtidas em massa, algumas reveladas pela revista The Atlantic, e essas coleções serviram como alimento para modelos que depois passaram por refinamentos comerciais.

Transparência, legislação e disputas judiciais

Especialistas alertam para a falta de clareza sobre o que exatamente foi extraído das plataformas. Diogo Cortiz, professor de ciência da computação da PUC-SP, afirmou que “Há muita falta de transparência na maioria das grandes empresas” desde a popularização do ChatGPT, em 2022. Esse vácuo informacional dificulta mensurar a proporção de conteúdos em português ou a participação de canais brasileiros nas bases de treinamento.

O uso de obras protegidas por direitos autorais em treinamentos de IA já é alvo de litígios no exterior. Associações de jornais, produtores e artistas defendem que o emprego dessas obras só poderia ocorrer por meio de licenciamento. Empresas americanas, por sua vez, alegam que o procedimento pode se enquadrar como “uso justo” e que restrições rígidas poderiam frear a inovação.

Um exemplo recente ocorreu na Alemanha, onde “um tribunal alemão decidiu, neste mês, que a OpenAI violou os direitos do cantor Herbert Grönemeyer, dono de um canal no YouTube com 170 mil seguidores, após o ChatGPT reproduzir letras completas do artista”. A sentença não abordou a etapa de treinamento, e a OpenAI disse em nota que “Não concordamos com o veredito e estamos avaliando os próximos passos“. A decisão sobre eventual reparação financeira ainda será tomada pelo tribunal de Munique e pode estabelecer precedentes para casos na Europa.

O posicionamento das plataformas e o cenário no Brasil

O YouTube afirmou que garante aos criadores e detentores de direitos o controle sobre como seu conteúdo é utilizado, e que a plataforma permite que usuários autorizem, nas configurações avançadas, o compartilhamento de vídeos com empresas de tecnologia. A empresa também disse que utiliza publicações de canais no desenvolvimento de seus próprios modelos de IA com finalidades como “o fortalecimento de nossas operações de segurança e o aprimoramento de nossos sistemas de recomendação, até o desenvolvimento de novos recursos de IA generativa, como a dublagem automática”.

Mesmo com essas declarações, o fato de coleções de vídeos serem identificadas apenas por códigos aleatórios, sem referência clara ao país de origem, torna difícil determinar exatamente quantos e quais conteúdos brasileiros foram empregados nos treinamentos. O YouTube, com “mais de 20 bilhões de vídeos“, funciona como um repositório global, e conteúdos em idiomas além do inglês são altamente estratégicos para empresas que buscam diversificar suas bases de dados.

Empresas como Google, Microsoft e Baidu, citadas em investigações e artigos, não comentaram detalhadamente o uso de vídeos raspados em desacordo com as regras da plataforma. O Google desenvolveu internamente o encoder VideoPrism e é dono do Veo 3, aplicativo comercial para geração de vídeos por IA, vendido a partir de R$ 96,99 por mês, mostrando como a mesma corporação pode ser ao mesmo tempo provedora de plataforma e desenvolvedora de ferramentas de IA.

Para criadores e especialistas jurídicos, a discussão deve avançar rapidamente, com definição clara sobre se é necessária autorização explícita, pagamento aos autores, ou se basta a concordância com termos de uso das plataformas. A professora de direito digital Mariana Valente, da Universidade de St. Gallen, afirmou à Folha que tribunais ao redor do mundo ainda precisam definir esses limites.

No Brasil, o debate promete ganhar força à medida que surgirem investigações mais detalhadas sobre a origem dos dados usados nos modelos e possíveis demandas judiciais. Enquanto isso, a presença de grandes volumes de vídeo em treinamentos de IA coloca em evidência a tensão entre desenvolvimento tecnológico, direitos autorais e a necessidade de maior transparência por parte das big techs.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *