Como a inteligência artificial industrial de um outsider virou vantagem no Vale do Silício

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Fundador de Trinidad usa inteligência artificial industrial para reduzir riscos em plataformas

Thomas Lee Young não tem o perfil clássico do empreendedor do Vale do Silício, e justamente essa trajetória inesperada virou vantagem estratégica para sua startup. Nascido e criado em Trinidad e Tobago, região marcada por intensa atividade de exploração de petróleo e gás, Young trouxe para São Francisco uma visão prática sobre segurança operacional e transformou esse conhecimento em tecnologia. A Interface usa inteligência artificial industrial para auditar e corrigir procedimentos operacionais que, em ambientes pesados, podem custar vidas.

Uma trajetória que une campo e código

Desde criança, Young sonhava com universidades como o Caltech, mas a pandemia mudou seus planos. Com o visto e o fundo de estudos de US$ 350 mil comprometidos pela crise, ele acabou fazendo engenharia mecânica na Universidade de Bristol. Lá, trabalhando na Jaguar Land Rover em engenharia de fatores humanos, ele teve o primeiro contato com a rotina e os perigos da indústria pesada.

Young conta que a experiência o levou a identificar um problema frequente: muitas empresas usam caneta e papel para gerenciar documentos de segurança, ou sistemas tão fragmentados que os trabalhadores os rejeitam. Quando propôs uma solução na Jaguar, não houve interesse. Ele então se inscreveu na Entrepreneur First, com taxa de aceitação de apenas 1%, foi selecionado e formou equipe com Aaryan Mehta, hoje CTO da Interface. Como Young lembra com humor, ao faltar ao trabalho para participar do processo seletivo, seus colegas perceberam: ‘Ah, então você provavelmente não estava em um casamento’.

Como a inteligência artificial industrial detecta riscos críticos

A Interface combina grandes modelos de linguagem com regulamentos, desenhos técnicos e políticas internas para fazer auditorias autônomas dos procedimentos operacionais. O resultado é a identificação de inconsistências, informações desatualizadas e erros que setor nenhum pode ignorar. Em uma das maiores empresas de energia do Canadá, onde a Interface já está implantada em três unidades, o software identificou 10.800 erros e pontos de melhoria em apenas dois meses e meio.

Segundo Young, o trabalho manual equivalente teria custado mais de US$ 35 milhões e levado de dois a três anos. Um exemplo claro do risco evitado foi um documento em circulação há 10 anos com a faixa de pressão equivocada para uma válvula. Como observou Medha Agarwal, investidora da rodada seed, ‘Eles tiveram sorte de nada ter acontecido’. Esses números ajudaram a Interface a conquistar contratos relevantes, incluindo um acordo que vale mais de US$ 2,5 milhões por ano.

Vantagem do outsider e os próximos passos

A idade e o histórico de Young, aspectos que poderiam ser vistos como desvantagens, tornaram-se um diferencial. Ao entrar em salas cheias de executivos experientes, ele muitas vezes enfrenta ceticismo inicial, mas rapidamente demonstra conhecimento operacional e impacto financeiro, e, como ele resume, ‘Depois que você os convence, eles passam a te admirar e lutam por você’. Em visitas a campo, é comum que operadores perguntem quando poderão investir na Interface, o que surpreende a equipe, pois trabalhadores de campo costumam desconfiar de fornecedores de software.

A Interface já levantou uma rodada seed de US$ 3,5 milhões e mira um mercado amplo: só nos Estados Unidos existem cerca de 27.000 empresas de serviços para petróleo e gás, e menos de 1% das startups em São Francisco atuam na indústria pesada. Para crescer, a empresa de oito funcionários enfrenta o desafio de contratar talentos rapidamente, aproveitando redes na Europa e nos EUA.

O caso de Young exemplifica como a combinação de conhecimento de campo com tecnologia pode gerar vantagem competitiva. A aposta em inteligência artificial industrial não é apenas uma tendência, é uma resposta prática a falhas que existiam há décadas. Para empresas que lidam com operações críticas, a promessa é clara: reduzir risco, economizar tempo e evitar tragédias que poderiam ser prevenidas com auditorias automatizadas e inteligentes.

Enquanto enfrenta a rotina intensa do Vale do Silício, Young mantém símbolos físicos dessa ligação com a indústria, como o capacete de proteção sempre à mão, pronto para a próxima visita a um site. Por ora, o objetivo é escalar a tecnologia, mostrar resultados e transformar a vantagem de um caminho improvável em padrão de segurança para setores que não podem errar.

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