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    Inteligência artificial e satélites mapeiam terras agrícolas abandonadas no Cerrado

    Inteligência artificial e satélites mapeiam terras agrícolas abandonadas no Cerrado

    Uma pesquisa inédita desenvolvida pela Embrapa e pela Universidade de Brasília (UnB) está transformando a forma como entendemos o uso da terra no Cerrado. Utilizando imagens de satélite de alta tecnologia e o poder da inteligência artificial (IA), o estudo conseguiu mapear áreas agrícolas que foram deixadas para trás. Os resultados iniciais, focados no município de Buritizeiro, no norte de Minas Gerais, são reveladores: mais de 13 mil hectares de terras agricultáveis estão abandonadas, o que representa quase 5% da área agrícola total do município em 2018. Essa iniciativa marca a primeira avaliação desse tipo no bioma e abre caminhos para ações de restauração ecológica, contabilidade de carbono e um planejamento territorial mais sustentável.

    A capacidade de identificar essas áreas com precisão, usando IA e satélites, é um avanço significativo. O que antes poderia passar despercebido ou levar anos para ser catalogado manualmente, agora é possível com uma acurácia de 94,7%. Essa tecnologia não apenas revela a extensão do abandono, mas também oferece insights sobre as causas e as consequências, permitindo que políticas públicas sejam mais eficazes e direcionadas. A Rede Neural Totalmente Conectada (FCNN), um modelo computacional avançado, foi fundamental nesse processo, reconhecendo padrões complexos nas imagens de satélite Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia (ESA).

    Tecnologia avançada a serviço do meio ambiente

    A pesquisa, conduzida por equipes da Embrapa Cerrados (DF), Embrapa Agricultura Digital (SP), Embrapa Meio Ambiente (SP) e a UnB, empregou técnicas de aprendizado profundo (deep learning). Essas técnicas permitiram não só identificar áreas abandonadas, mas também classificar diferentes coberturas do solo: vegetação nativa, pastagens cultivadas, lavouras anuais e plantações de eucalipto. A classificação de áreas agrícolas abandonadas foi uma novidade e um dos pontos altos do estudo.

    O mapeamento detalhado revelou que cerca de 87% das terras abandonadas em Buritizeiro eram antigas plantações de eucalipto, originalmente destinadas à produção de carvão vegetal. O município é conhecido por sua extensa área de eucaliptos e pela pecuária bovina.

    Fatores que levam ao abandono de terras

    Segundo Edson Sano, pesquisador da Embrapa Cerrados, diversos fatores contribuem para o abandono de áreas agrícolas na região. “A região caracteriza-se por desafios produtivos, como baixa produtividade em pastagens durante períodos secos e custos crescentes de insumos fertilizantes, fatores que contribuem para o abandono de áreas agrícolas”, explica.

    A queda na atratividade econômica da produção de carvão vegetal, impulsionada pelo aumento nos custos logísticos e de produção, também é um fator relevante. O principal destino desse carvão era o polo siderúrgico de Sete Lagoas, em Minas Gerais. Adicionalmente, o aumento nos preços de fertilizantes e outros insumos agrícolas tem desencorajado a continuidade de atividades produtivas intensivas.

    É importante notar que, apesar do abandono em áreas de silvicultura, o estudo não identificou abandono significativo em lavouras anuais como soja ou milho durante o período analisado (2018-2022). Isso sugere que esses sistemas agrícolas mais intensivos conseguiram manter sua produtividade.

    Implicações para políticas públicas e sustentabilidade

    Gustavo Bayma, analista da Embrapa Meio Ambiente, destaca o potencial dos mapas gerados. “Os mapas gerados por essa metodologia trazem informações espaciais detalhadas sobre o abandono de terras”, afirma. Esses dados são cruciais para incluir áreas subutilizadas em estratégias nacionais de restauração ambiental e de mitigação das mudanças climáticas, como a estimativa do potencial de sequestro de carbono e a criação de corredores ecológicos.

    O estudo também aponta a necessidade de políticas que estabilizem os preços de insumos agrícolas e promovam alternativas econômicas sustentáveis, especialmente para pequenas e médias propriedades, já que fatores econômicos foram determinantes para o abandono de pastagens.

    No entanto, o monitoramento ainda enfrenta desafios. A análise se baseou em poucas datas de aquisição de imagens, o que dificulta a distinção entre abandono permanente e períodos temporários de pousio (descanso da terra). A diferenciação entre pastagens degradadas e vegetação nativa também é um obstáculo, pois suas características espectrais podem ser muito similares.

    “Os resultados fortalecem a necessidade de incorporar áreas abandonadas em políticas ambientais e agrícolas, com vistas à restauração ecológica, à mitigação climática e à sustentabilidade rural”, afirma Édson Bolfe, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital.

    Apesar das limitações, a pesquisa comprova que métodos de aprendizado profundo combinados a imagens de satélite são capazes de mapear terras agrícolas abandonadas no Cerrado com robustez e precisão. Este avanço metodológico é vital para a avaliação de transições no uso da terra em ecossistemas de savana tropical e reforça a importância de considerar essas áreas em estratégias de desenvolvimento sustentável.