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  • Luiza Helena Trajano defende mais protagonismo feminino nos projetos de IA

    Luiza Helena Trajano defende mais protagonismo feminino nos projetos de IA

    Luiza Helena Trajano defende mais protagonismo feminino nos projetos de IA

    A inteligência artificial (IA) não é uma tecnologia neutra. Ela aprende a partir de dados, e esses dados foram gerados em um contexto histórico de desigualdade. Luiza Trajano, presidente do Conselho do Magazine Luiza e fundadora do Grupo Mulheres do Brasil, tem alertado com crescente urgência: a ausência de mulheres na programação, liderança e tomada de decisões em projetos de IA pode levar à sistematização e escalada de preconceitos já existentes no mundo real. Este é um risco concreto, com implicações mensuráveis para empresas e para a sociedade.

    A premissa central é clara: quando os dados utilizados para treinar modelos de IA refletem décadas de sub-representação feminina, o algoritmo aprende o desequilíbrio como norma e o reproduz em diversas áreas, como processos seletivos, concessão de crédito e diagnósticos médicos. A solução, segundo Trajano, começa com a inclusão de mais mulheres nos espaços de criação e decisão tecnológica.

    A origem do problema: dados e desequilíbrio

    Modelos de inteligência artificial são treinados com base em padrões históricos. Quando esses padrões mostram a sub-representação feminina em áreas como o mercado de trabalho, ciência e liderança, o resultado é que os algoritmos passam a perpetuar esse desequilíbrio. Isso pode se manifestar em processos seletivos enviesados, dificuldades na obtenção de crédito ou diagnósticos médicos imprecisos para mulheres.

    “Precisamos de mais mulheres programando, mais mulheres liderando projetos e participando das decisões sobre inteligência artificial”, declarou Trajano, enfatizando que a inclusão é o ponto de partida para evitar que a tecnologia escale desigualdades.

    Tecnologia: ferramenta de emancipação ou exclusão?

    Trajano reconhece o imenso potencial transformador da tecnologia para as mulheres, abrindo portas para vendas online, estudos a distância e criação de negócios digitais. No entanto, esse potencial só se concretiza com acesso e formação adequados. Sem uma inclusão deliberada, a tecnologia tende a concentrar poder, em vez de democratizá-lo.

    “Tecnologia sem inclusão pode ampliar desigualdades. Com inclusão, ela transforma vidas”, ressalta Trajano. Essa distinção é crucial e, muitas vezes, negligenciada nas estratégias corporativas de inovação.

    Desigualdade salarial: uma questão de gestão

    Em relação à diferença salarial entre homens e mulheres em cargos iguais, Luiza Helena Trajano é categórica: não se trata de um problema estrutural sem solução, mas sim de uma decisão de gestão. Ela afirma que, quando há um compromisso real da liderança, o ajuste salarial acontece. A falta de equidade, em muitos casos, reside na ausência de prioridade.

    Muitas organizações encaram a desigualdade salarial como um tema complexo, mas Trajano desmonta esse argumento, indicando que a solução existe e depende da vontade de implementá-la.

    Cotas: instrumentos para corrigir desigualdades

    A presidente do Conselho da Magalu é defensora do uso de cotas para mulheres em conselhos e cargos de liderança, classificando-as como instrumentos temporários essenciais para corrigir desigualdades históricas, e não como privilégios. Através do Grupo Mulheres do Brasil, ela participou ativamente da aprovação da Lei 15.177/2025, que estabelece a reserva mínima de 30% de vagas para mulheres em conselhos de administração de empresas públicas e sociedades de economia mista.

    Para Trajano, o impacto das cotas transcende a representatividade. Uma maior diversidade na liderança, segundo ela, aprimora a governança corporativa, enriquece a tomada de decisões e fortalece os resultados das organizações, configurando uma lógica empresarial e não meramente social.

    Gestão com visão de longo prazo e cultura organizacional

    A trajetória à frente do Magazine Luiza ensinou a Trajano a importância de construir valor a longo prazo, cuidando das pessoas. Empresas que focam apenas no resultado trimestral, segundo ela, dificilmente constroem um legado duradouro. No Magalu, a cultura de proximidade, escuta e valorização das pessoas é uma prática cotidiana, que antecede os conceitos de ESG.

    Essa cultura, que sustenta décadas de crescimento em um mercado predominantemente masculino, também se reflete na política de combate ao assédio. A posição é clara: assédio é inegociável e no Magalu resulta em demissão. Canais seguros de denúncia são uma obrigação, não um benefício.

    O que está em jogo: o futuro moldado pela IA

    O debate sobre a presença feminina na IA é central para definir como a tecnologia mais poderosa da história será construída e para quem. As decisões tomadas nos próximos meses e anos definirão os padrões que os sistemas de IA carregarão por décadas. Aqueles que estiverem presentes nessas decisões moldarão o futuro, enquanto os ausentes herdarão um sistema que não foi pensado para suas necessidades.

    Luiza Trajano compreendeu a urgência dessa questão estratégica. A pergunta que fica é se as organizações entenderão a tempo a importância da inclusão feminina no desenvolvimento da inteligência artificial.