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  • Como a IA pode criar uma geração sem raciocínio ou memória

    Como a IA pode criar uma geração sem raciocínio ou memória

    IA: Um atalho que pode custar caro ao aprendizado humano

    A inteligência artificial (IA) está cada vez mais integrada ao cotidiano, com estudantes de todas as idades recorrendo a chatbots para solucionar desde problemas simples aos mais complexos. Essa delegação cognitiva, no entanto, levanta uma preocupação crescente entre pesquisadores e educadores: o impacto dessa dependência no desenvolvimento do raciocínio, da memória e da criatividade humana.

    Durante um painel no festival SXSW, especialistas discutiram o risco de a tecnologia, ao assumir uma parcela cada vez maior das tarefas mentais, levar à diminuição do exercício de habilidades cruciais para o processo de aprendizado. A base dessa preocupação reside em um princípio fundamental da neurociência: o cérebro se adapta aos estímulos que recebe. Habilidades frequentemente usadas tendem a se fortalecer, enquanto aquelas que não são exercitadas podem enfraquecer com o tempo.

    O dilema da conveniência tecnológica

    Sanjay Sarma, professor do MIT e pesquisador em tecnologia educacional, expressou sua profunda apreensão de que a IA se torne uma “muleta” que resulte em atrofia cognitiva. Ele ressalta que, embora preocupações semelhantes tenham acompanhado outras transformações tecnológicas, como a disseminação da escrita na Grécia Antiga (que Platão temia prejudicar a memória), a inteligência artificial apresenta um nível de delegação cognitiva diferente.

    A IA opera diretamente em atividades associadas ao raciocínio e à produção intelectual. Aplicativos de navegação definem rotas, ferramentas de IA generativa criam textos e imagens a partir de comandos simples, e dispositivos conectados auxiliam na identificação de informações e objetos. A grande questão é como o cérebro humano responderá à ausência de parte dessas demandas cognitivas.

    A mudança visível nas universidades

    Olivia Joseph, estudante de computação e cognição no MIT, já observa essa mudança dentro do ambiente universitário. Ela relata que, antes da popularização dos grandes modelos de linguagem (LLMs), a resolução de problemas complexos envolvia discussões com colegas, consultas a professores e experimentação. “Você tentava, falhava, tentava de novo e eventualmente chegava à resposta”, recorda.

    Com a chegada dos LLMs, a adoção entre os estudantes foi quase imediata. “Em poucas semanas, todo mundo estava usando”, afirma Joseph. Essa nova dinâmica, especialmente em áreas técnicas como a ciência da computação, leva a situações onde exercícios que antes exigiam tentativa e erro são resolvidos diretamente com a ajuda da IA. “Tenho colegas que praticamente não escrevem mais código”, lamenta.

    O risco da perda de habilidades e homogeneização

    Para Joseph, a preocupação vai além do uso indevido em avaliações acadêmicas. O cerne da questão é a perda de uma etapa fundamental do aprendizado: o desenvolvimento gradual de habilidades através da prática. Ela compara o processo ao treinamento esportivo: “Você não entra em quadra sem praticar os fundamentos”.

    Sem a prática repetida – seja escrevendo código, testando hipóteses ou corrigindo erros – torna-se mais difícil desenvolver uma compreensão profunda dos problemas. Joseph destaca que os modelos de linguagem são particularmente eficazes em tarefas com soluções já documentadas: “LLMs são ótimos para resolver problemas que já foram resolvidos”. Mas e quanto aos problemas que ainda não existem?

    Outra observação de Joseph é a padronização da escrita. Textos produzidos por diferentes alunos, mesmo com suas próprias palavras, tendem a apresentar estruturas e tons semelhantes. “Eles tinham todos o mesmo tom”, diz. Em alguns casos, o uso de ferramentas de IA é evidente; em outros, a influência parece mais indireta, resultado do auxílio de LLMs na pesquisa, sumarização e organização de ideias.

    O desafio para o ensino superior

    Chris Gabrieli, presidente do Conselho de Educação Superior de Massachusetts, aponta que as discussões sobre IA nas universidades frequentemente começam com a preocupação com a desonestidade acadêmica. “Todo mundo está colando”, afirma. Muitas instituições têm reagido reinstaurando avaliações presenciais ou exames manuscritos.

    No entanto, Gabrieli considera essa uma resposta parcial. O desafio mais amplo, segundo ele, é que o modelo de ensino superior foi construído em torno de avaliações – como trabalhos escritos e ensaios – que se tornaram fáceis de automatizar com os avanços da IA. Isso levanta questões sobre como medir o aprendizado de forma eficaz quando a produção de textos estruturados não exige mais o mesmo processo cognitivo.

    A expansão da IA ocorre em um momento de desafios para as universidades, como queda nas matrículas, aumento de custos e questionamentos sobre o retorno econômico de um diploma. A expectativa geral é que dominar as ferramentas de IA se torne uma habilidade básica no mercado de trabalho. “Seria uma má ideia contratar alguém que não sabe usar IA”, reconhece Gabrieli.

    O caminho para um aprendizado genuíno

    O desafio, segundo os especialistas, é garantir que o uso dessas tecnologias não substitua as etapas essenciais do aprendizado humano. A resolução de problemas, a escrita de textos e o desenvolvimento de argumentos devem continuar envolvendo um processo de tentativa, erro, revisão e reflexão. Somente assim um aprendizado genuíno poderá ocorrer, preservando as capacidades de raciocínio e memória para as futuras gerações.

  • Notícias – Variedades – O risco da inteligência artificial para o futuro do aprendizado e do trabalho

    Notícias – Variedades – O risco da inteligência artificial para o futuro do aprendizado e do trabalho

    O risco da inteligência artificial para o futuro do aprendizado e do trabalho

    A inteligência artificial (IA) tem sido apresentada como uma solução para diversos desafios contemporâneos. No entanto, uma perspectiva crítica alerta para os perigos de uma idealização excessiva dessa tecnologia, especialmente no que tange ao futuro do aprendizado e das relações profissionais. A preocupação central reside na possibilidade de a IA substituir atividades essenciais que dependem da conexão e empatia humanas.

    A professora de sociologia Allison Pugh, da Universidade Johns Hopkins, destacou em palestra no Century Summit VI, evento realizado pela Universidade Stanford, que o foco no potencial humano é o verdadeiro motor da inovação. Segundo Pugh, a idealização da IA pode obscurecer a importância do que ela chama de “trabalho de conexão” (connective labor), essencial para o progresso e bem-estar.

    O que é o trabalho de conexão?

    Em seu livro “The last human job: the work of connecting in a disconnected world” (O último emprego humano: o trabalho de conectar-se em um mundo desconectado), Pugh entrevistou cerca de cem profissionais que se dedicam a esse tipo de atividade. Médicos, enfermeiros, terapeutas, cuidadores e até cabeleireiros foram incluídos neste grupo. Para a socióloga, esses profissionais se destacam pela capacidade de vivenciar a empatia e enxergar o outro, atributos que considera o “o que o ser humano faz de melhor”.

    Pugh ressalta que a IA, moldada para o lucro, pode ser apresentada como substituta para essas funções. “As empresas de IA visam ao lucro e farão de tudo para que sua tecnologia ocupe todos os espaços possíveis de ensino, mentoria e companhia”, alertou. A preocupação é que a tecnologia, ao buscar manter o engajamento do consumidor e atender a todos os seus anseios, possa desencorajar a busca por ajuda e interação humanas.

    “Queremos a tecnologia que fabricará medicamentos eficientes em tempo recorde, mas não aquela que pretende intervir ou mediar a vida de alguém”.

    A importância da “fricção” no aprendizado e trabalho

    A socióloga introduz o conceito de “fricção” para descrever a tensão necessária no aprendizado e nos relacionamentos. É essa dificuldade, essa saída da zona de conforto, que impulsiona a criatividade e o senso de propósito. “A criatividade não acontece quando estamos satisfeitos”, afirmou, contrastando com a natureza dos algoritmos de IA, que tendem a eliminar as dificuldades.

    Pugh observa que a IA é frequentemente elogiada por sua disponibilidade e falta de julgamento, mas argumenta que essa ausência de “fricção” pode comprometer a capacidade de relacionamento. “É fundamental a capacidade de se relacionar, o que pode estar sendo afetado, e até comprometido, quando se forja a ideia de que a inteligência artificial é a solução para tudo”.

    Investimento bilionário em IA

    O cenário de priorização da IA no âmbito corporativo é evidenciado por investimentos significativos. Recentemente, o jornal The New York Times noticiou que a Meta, empresa por trás do Facebook, Instagram e WhatsApp, planeja investir US$ 65 milhões (aproximadamente R$ 340 milhões) em 2026. O objetivo é apoiar políticos favoráveis à indústria de inteligência artificial, sinalizando uma estratégia de escala bilionária para influenciar o futuro da tecnologia.

    Este movimento demonstra a força econômica e a influência que a indústria de IA busca exercer, reforçando a urgência de se discutir o tipo de tecnologia que se deseja e seus reais impactos no aprendizado e no trabalho humano.