Tag: agricultura

  • Agricultura testa equipamento de inteligência artificial para monitoramento de insetos em videiras

    Agricultura testa equipamento de inteligência artificial para monitoramento de insetos em videiras

    Agricultura testa equipamento de inteligência artificial para monitoramento de insetos em videiras

    Técnicos da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) instalaram, em Bento Gonçalves, o primeiro equipamento de monitoramento automático de pragas em parreirais de uva. O novo sistema, que passará por um teste de seis meses, representa a incorporação da inteligência artificial (IA) ao sistema de vigilância fitossanitária do Estado. A iniciativa foca na prevenção contra a Lobesia botrana, uma mariposa com a videira como hospedeira, classificada como inseto quarentenário e com alto potencial de estabelecimento no Brasil.

    Atualmente, a prevenção envolve 20 armadilhas convencionais em 15 municípios, inspecionadas quinzenalmente por técnicos da Seapi. Estes profissionais trocam placas adesivas e analisam o material em busca de espécimes suspeitos, encaminhando amostras para laboratório oficial quando necessário. O feromônio, atrativo sexual que libera odor para atrair insetos, é trocado a cada 45 dias.

    Automação e dados em tempo real com IA

    O novo equipamento automatiza grande parte desse processo. A chefe da Divisão de Defesa Sanitária Vegetal do DDV, Deise Riffel, explica que o servidor precisará apenas substituir o feromônio, que mantém sua capacidade de atração por 45 dias. “O novo equipamento utiliza o mesmo sistema adesivo e o mesmo atrativo do convencional, mas incorpora tecnologia de inteligência artificial para a captura de imagens e a identificação da espécie, com os dados disponibilizados em tempo real por meio de um aplicativo”, afirma.

    O sistema gera imagens dos insetos capturados, que são analisadas automaticamente para identificar a presença da Lobesia botrana ou outras espécies suspeitas. O monitoramento torna-se contínuo, com a frequência de geração de imagens configurável. As imagens e alertas são enviados para um aplicativo no celular, permitindo a verificação e atuação rápida dos técnicos, complementando a análise automatizada.

    Aprimoramento do monitoramento fitossanitário

    O fiscal agropecuário da Seapi, Marcos Antônio Cambruzzi, que participou da instalação, destaca o aprimoramento trazido pela tecnologia: “O novo sistema aprimora significativamente o trabalho, porque permite um monitoramento mais eficiente e ágil”. A iniciativa reflete o compromisso do Estado com a vigilância fitossanitária e a adoção de tecnologias inovadoras para a proteção da agricultura.

  • Inteligência artificial mapeia áreas agrícolas abandonadas no Cerrado

    Inteligência artificial mapeia áreas agrícolas abandonadas no Cerrado

    Inteligência artificial mapeia áreas agrícolas abandonadas no Cerrado

    Uma inovação tecnológica está revolucionando a forma como o Cerrado brasileiro é compreendido. Pesquisadores da Embrapa e da Universidade de Brasília (UnB) desenvolveram um estudo pioneiro que utiliza inteligência artificial (IA) e imagens de satélite para identificar e mapear áreas agrícolas abandonadas no bioma. Os resultados preliminares, focados no município de Buritizeiro, em Minas Gerais, revelaram mais de 13 mil hectares de terras ociosas entre 2018 e 2022, um número expressivo que representa quase 5% da área agrícola total do local no início do período. Esta iniciativa marca a primeira avaliação detalhada desse fenômeno no Cerrado e promete ser uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à restauração ecológica, à contabilização de carbono e ao planejamento territorial com foco na sustentabilidade.

    A pesquisa, conduzida por equipes multidisciplinares da Embrapa Cerrados (DF), Embrapa Agricultura Digital (SP) e Embrapa Meio Ambiente (SP), em colaboração com a UnB, empregou imagens de alta resolução do satélite Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia (ESA). Combinando essas imagens com técnicas avançadas de aprendizado profundo (deep learning), os cientistas conseguiram treinar um modelo computacional, conhecido como Rede Neural Totalmente Conectada (FCNN), para reconhecer padrões e classificar com precisão diferentes coberturas e usos da terra. Essa tecnologia inédita permitiu não apenas identificar vegetação nativa, pastagens, lavouras anuais e plantações de eucalipto, mas também, pela primeira vez, detectar áreas agrícolas em processo de abandono.

    Tecnologia garante alta precisão no mapeamento

    A eficácia da metodologia empregada é notável. O mapeamento alcançou uma acurácia de 94,7%, um índice considerado excelente para análises de uso da terra realizadas por meio de sensoriamento remoto. Essa alta confiabilidade nos dados permite uma compreensão mais aprofundada das dinâmicas territoriais no Cerrado.

    Eucalipto e desafios econômicos impulsionam abandono

    Os dados levantados em Buritizeiro indicam que a maioria das áreas abandonadas (cerca de 87%) era anteriormente ocupada por plantações de eucalipto, frequentemente destinadas à produção de carvão vegetal. O pesquisador da Embrapa Cerrados, Edson Sano, explica que diversos fatores contribuem para essa situação.

    “A região tem se caracterizado por desafios produtivos, incluindo baixa produtividade em pastagens durante períodos secos e custos crescentes de insumos fertilizantes, fatores que contribuem para o abandono”, afirma Sano.

    Ele acrescenta que a queda na atratividade econômica da produção de carvão vegetal, principal destino desses plantios, também é um fator relevante. “O aumento nos custos logísticos e de produção, direcionados principalmente para o polo siderúrgico de Sete Lagoas (MG), diminuiu a rentabilidade dessas atividades”, detalha o pesquisador.

    Sistemas agrícolas intensivos mantêm produtividade

    Por outro lado, o estudo não observou abandono significativo em lavouras anuais, como soja e milho, no período analisado. Segundo Sano, “isso sugere que os sistemas agrícolas mais intensivos mantiveram sua produtividade ao longo dos cinco anos analisados”. Isso indica resiliência e viabilidade econômica nesses setores.

    Desafios e limitações da tecnologia

    Apesar dos avanços, a equipe de pesquisa aponta alguns desafios. Édson Bolfe, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital, ressalta que a análise se baseou em um número limitado de imagens ao longo de cinco anos, o que dificulta a distinção precisa entre abandono permanente e práticas temporárias de pousio. A confirmação definitiva do abandono, em alguns casos, ainda requer interpretação visual e conhecimento local.

    Outro ponto levantado é a dificuldade intrínseca ao sensoriamento remoto em diferenciar áreas de pastagens degradadas de algumas formações de vegetação nativa, como gramíneas e arbustos, devido à semelhança em suas assinaturas espectrais. Contudo, o desenvolvimento contínuo da IA e o aprimoramento de algoritmos prometem superar essas barreiras em futuras aplicações.

  • Modelos de IA ocidentais falham espetacularmente em fazendas e florestas no exterior

    Modelos de IA ocidentais falham espetacularmente em fazendas e florestas no exterior

    Modelos de IA ocidentais falham espetacularmente em fazendas e florestas no exterior

    Modelos de inteligência artificial desenvolvidos por gigantes da tecnologia ocidental têm demonstrado falhas notáveis quando aplicados em cenários agrícolas fora de seus mercados de origem. A ciência por trás dessas ferramentas, que prometem revolucionar desde o mapeamento de safras até o monitoramento de desmatamento, muitas vezes se choca com a realidade de contextos locais, especialmente no Sul Global. A falta de adaptação e dados específicos para essas regiões torna essas soluções, em muitos casos, irrelevantes e potencialmente agravadoras de desigualdades existentes.

    A especialista Catherine Nakalembe, professora assistente na Universidade de Maryland e diretora do programa África na NASA Harvest, exemplifica o desafio. Ao tentar mapear tipos de culturas no oeste do Quênia, ela se deparou com a limitação de modelos de IA que não reconheciam as plantações locais. A solução encontrada foi a coleta de dados próprios: câmeras GoPro em capacetes de voluntários registraram mais de 5 milhões de imagens em duas semanas, treinando o reconhecimento facial para identificar milho, feijão e mandioca. Essa iniciativa destaca uma necessidade fundamental: a adaptação de sistemas de IA, frequentemente treinados com dados europeus e americanos, para contextos locais.

    Desafios da aplicação de IA no Sul Global

    A relevância das ferramentas de IA no setor agrícola é inegável, com potencial para otimizar a produção e auxiliar pequenos agricultores, que representam mais de 2 bilhões de pessoas em países de baixa e média renda. No entanto, a aplicação dessas tecnologias enfrenta barreiras significativas. Oren Ahoobim, da consultoria Dalberg Advisors, aponta que a qualidade e disponibilidade dos dados subjacentes melhoraram drasticamente, mas a adaptação para o Sul Global é crucial. “Sistemas de IA construídos no Ocidente muitas vezes falham em considerar os contextos do Sul Global, incluindo altos custos de internet, largura de banda limitada e falta de dados de treinamento rotulados”, explica Nakalembe.

    Quando esses sistemas não são adaptados, eles correm o risco de se tornarem irrelevantes, aprofundando desigualdades. Existe ainda o perigo de que priorizem o lucro corporativo em detrimento das necessidades dos agricultores. A inteligência artificial é vista como uma solução para combater a fome, um dos objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU, mas a sua implementação eficaz depende de um entendimento profundo das realidades locais.

    Exemplos práticos e lições aprendidas

    Apesar dos desafios, a IA já demonstra seu potencial em diversas iniciativas. No Pará, Brasil, dados costeiros em tempo real são transformados em alertas de voz via WhatsApp para pescadores e produtores de ostras. A Microsoft utiliza IA para monitorar o desmatamento na Amazônia através de bioacústica.

    Na Ásia e África, o aplicativo FarmerChat, da Digital Green, atende a mais de 1 milhão de agricultores, usando IA generativa para responder a perguntas em 16 idiomas locais e diagnosticar problemas em plantas a partir de imagens. Rikin Gandhi, cofundador da Digital Green, ressalta que os modelos de linguagem foram treinados com mais de 120.000 interações de agricultores e respostas de especialistas, utilizando a linguagem que os próprios agricultores utilizam. “A agricultura é hiperlocal: tipo de solo, chuva, altitude, pragas e mercados variam de vila para vila. O aprendizado do modelo deve permanecer próximo a essas realidades”, afirma Gandhi.

    O risco do colonialismo digital e a importância da adaptação local

    A iniciativa Farmers for Forests, na Índia, enfrentou um revés ao utilizar um modelo popular de código aberto para analisar dados florestais no estado de Maharashtra. O modelo, treinado em florestas norte-americanas, falhou em identificar mais da metade das árvores. Arti Dhar, diretora do grupo, enfatizou: “É uma lição clara que você não pode simplesmente introduzir IA ocidental no Sul Global e esperar que funcione.” Sua equipe desenvolveu um modelo customizado, baseado no Detectron2 da Meta, que mapeia árvores em imagens de drones para calcular o sequestro de carbono, gerando renda para os agricultores. O chatbot ChutkiAI, também desenvolvido pela equipe, oferece suporte aos agricultores.

    “Propriedade e adaptação local são críticas… caso contrário, a promessa da IA permanecerá concentrada nas mãos de poucos”, alerta Dhar. Ela acrescenta que a tecnologia é apenas parte da solução; a confiança e o alinhamento com as necessidades econômicas reais dos agricultores são essenciais. O mercado de ferramentas digitais para agricultura, avaliado em cerca de 30 bilhões de dólares em 2025 e projetado para atingir 84 bilhões até 2034, atrai grandes empresas de tecnologia. Contudo, há um risco de que a IA se torne uma nova forma de colonialismo digital, com empresas extraindo dados de comunidades vulneráveis para criar modelos proprietários e, em seguida, vendendo serviços de volta a essas mesmas comunidades.

    A inteligência artificial otimizada apenas para curto prazo, ignorando questões como esgotamento de água e degradação do solo, pode minar a resiliência a longo prazo. Gandhi conclui: “Um sistema de IA pode ter um bom desempenho técnico e ainda assim falhar com os agricultores se ignorar as realidades econômicas e ecológicas. A verdadeira medida da IA na agricultura é se ela fortalece a agência do agricultor, melhora a lucratividade, apoia a sustentabilidade e funciona para homens e mulheres. Isso depende inteiramente da construção com os agricultores, não apenas para eles.”